quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O encontro

Ela o encontrou pensativo em frente aos vinhos importados. Quis virar mas era tarde, o carrinho dela parou junto ao pé dele. Ele a encarou, primeiro sem expressão, depois com surpresa, depois com embaraço, e no fim os dois sorriram. Tinham estado casados seis anos e separados, um, e aquela era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Sorriram, e ele falou antes dela; quase falaram ao mesmo tempo.
- Você está morando por aqui?
- Na casa do papai.
Na casa do papai! Ele sacudiu a cabeça, fingiu que arrumava alguma coisa dentro do seu carrinho – enlatados, bolachas, muitas garrafas – tudo para ela não ver que ele estava muito emocionado.
Soubera da morte do ex-sogro, mas não se animara a ir ao enterro. Fora logo depois da separação, ele não tivera coragem de ir dar condolências formais à mulher que, uma semana antes, ele chamara de vaca. Como era mesmo que ele tinha dito? “Tu és uma vaca sem coração!”. Ela não tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta, mas não lhe ocorrera outro insulto. Fora a última palavra que ele lhe dissera. E ela o chamara de farsante. Achou melhor não perguntar pela mãe dela.
- E você? – perguntou ela ainda sorrindo.
Continuava bonita.
- Tenho um apartamento aqui perto.
Fizera bem em não ir ao enterro do velho. Melhor que o primeiro encontro fosse assim, informal, num supermercado, à noite. O que ela estaria fazendo ali àquela hora?
- Você sempre faz compras de madrugada?
Meu Deus, será que ela vai tomar a pergunta como ironia?
Esse tinha sido um dos problemas do casamento, ele nunca sabia como ela ia interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a chamara de vaca, no fim. Vaca não deixava dúvidas de que ele a desprezava.
- Não, não. É que estou com uns amigos lá em casa, resolvemos fazer alguma coisa para comer e não tinha nada em casa.
- Curioso, eu também tenho gente lá em casa e vim comprar bebidas, patê, essas coisas.
- Gozado.
Ela dissera uns amigos. Seria alguém do seu tempo? A velha turma? Ele nunca mais vira os antigos amigos do casal. Ela sempre fora mais social do que ele. Quem sabe era um amigo? Ela era uma mulher bonita, esbelta, claro que podia ter namorados, a vaca.
E ela estava pensando: ele odiava festas, odiava ter gente em casa. Programa, para ele, era ir para casa do papai jogar buraco. Agora tem amigos em casa. Ou será uma amiga? Afinal, ele ainda era moço... Deixara a amiga no apartamento e viera fazer compras. E comprava vinhos importados, o farsante.
Ele pensou: ela não sente minha falta. Tem a casa cheia de amigos. E na certa viu que fiquei engasgado ao vê-la, pensa que eu sinto a falta dela. Mas não vai ter essa satisfação, não senhora.
- Meu estoque de bebidas não dura muito. Tem sempre gente lá em casa – disse ele.
- Lá em casa também é uma festa atrás da outra.
- Você sempre gostou de festas.
- E você não.
- A gente muda né? Muda de hábitos...
- Tou vendo.
- Você não me reconheceria se viesse viver comigo outra vez.
Ela, ainda sorrindo.
- Deus que me livre.
Os dois riram, era um encontro informal.
Durante seis anos tinham se amado muito. Não podiam viver um sem o outro. Os amigos diziam: Esses dois se um morrer, o outro se suicida. Os amigos não sabiam que havia sempre uma ameaça de mal-entendido entre eles. Eles se amavam mas não se entendiam. Era como se o amor fosse mais forte, porque substituía o entendimento, tinha função acumulada. Ela interpretava o que ele dizia, ele não queria dizer nada.
Passaram juntos pelo caixa, ele não se ofereceu para pagar, afinal era com a pensão que ele lhe pagava que ela dava festas para uns amigos. Ele pensou em perguntar pela mãe dela, ela pensou em perguntar se ele estava bem, se aquele problema do ácido úrico não voltara, começaram os dois a falar ao mesmo tempo, riram, depois se despediram sem dizer mais nada.
Quando ela chegou em casa ainda ouviu a mãe resmungar, da cama, que precisava acabar com aquela história de fazer as compras de madrugada, que ela precisava ter amigos, fazer alguma coisa, em vez de ficar lamentando o marido perdido. Ela não disse nada. Guardou as compras antes de ir dormir.
Quando ele chegou no apartamento, abriu uma lata de patê, o pacote de bolachas, abriu o vinho português, ficou comendo e bebendo sozinho, até ter sono e aí foi dormir.
Aquele farsante, pensou ela, antes de dormir.
Aquela vaca, pensou ele, antes de dormir.


Luis Fernando Veríssimo
Comédias da vida privada

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O enforcado

Ouvi uma vez de um especialista que tudo aquilo que conseguimos fazer rigorosamente por 21 dias consecutivos viram parte da nossa rotina e a partir do 22º dia vai ser feito automaticamente, sem esforço algum.
Espero que aquilo que venho não fazendo rigorosamente há 21 dias siga esta mesma regra e a partir de amanhã seja simplesmente parte da minha rotina. Porque até então, o esforço que eu fiz para conseguir não fazer foi sobrenatural.

O Enforcado: sacrifício e dedicação
"Se não consegue solucionar suas crises, mude a maneira de enxergar as coisas."




Eternamente insatisfeita

Pedindo dinheiro, ganhei trabalho. Ganhando trabalho, perdi feriado. Perdendo feriado, ganhei mau humor. Dá pra voltar a fita até dia 31 de dezembro, colocar uma calcinha branca e pedir somente PAZ?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

No meio do caminho tinha uma pedra

Estava eu na Etna em São Paulo fazendo a volta olímpica naquela imensidão, quando me deparo com mesinhas desmontáveis por R$9,90. Nossa, como eu precisava daquilo. E cabiam na minha mala. E eram baratas. Vou levar duas. Não três. Não duas. Deixa eu ver... três é o que eu preciso. Não, vou economizar, só vou levar duas. Segue a volta olímpica sem tirar a terceira mesinha na cabeça. Horas depois chegamos no caixa. Na pilha do carrinho, aparece um produto estragado. Volta a Kelen até lá e pega outro. É um sinal, vou pegar mais uma mesinha! Mesinha, mesinha, cadê mesmo aquela pilha imensa de mesinhas que estava aqui? Acabou, senhora.
.:.
Chego quarenta minutos adiantada no Ocidente pro Sarau Elétrico não só pra pegar uma mesa como uma mesa boa. Chego tão adiantada que a birosca ainda não estava aberta. Espero aqui, não espero, onde eu poderia ir e voltar daqui a pouco... mas vai que chega gente e vira fila e eu perco minha mesa, mas é tão ruim esperar sozinha... vou dar uma volta na quadra. Dez minutos e uma volta na quadra depois o Ocidente segue fechado. Com uma fila de seis pessoas.

.:.
E a vida vai me ensinando como funciona a regra do "tropeçou a fila anda".

domingo, 20 de janeiro de 2008

12 segundos de oscuridad

Poderia ir agora até a Espanha, pra ouvir ele cantar. E poderia congelar o tempo por lá.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Procura-se

Há mais ou menos doze anos moro sozinha. Com algumas (breves) interrupções, é verdade, mas nunca deixei de me virar sem ajuda masculina, fosse pra troca da lâmpada ou pro ralo entupido. Todos os pregos e parafusos instalados nas minhas paredes foram parar ali por obra de nós três: eu, meu martelo e minha furadeira. Já furei, martelei, parafusei, montei, pintei, lixei, pendurei, conectei, pluguei e a última (e econômica) novidade: aprendi a instalar tomadas e interruptores!
Mas nem por isso vou entrar no time das que dizem que homem só serve pra isso mesmo, discordo totalmente. Por exemplo agora, neste exato momento o que eu mais preciso nessa vida é de um homem. Porque instalar o ventilador de teto com comando de parede vai ser demais pra mim.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O que será, do amanhã, como vai ser, o meu destino

Não sou escrava da astrologia, mas vez ou outra leio, confesso, fazer o quê?
Aí um dia recebi um e-mail de fim de ano de uma amiga, com uma mensagem bem legal, que vinha do site Personare. Como era legal, entrei no site. Pra quê. Me mandam a cada três dias meu trânsito astrológico e ainda oferecem outros serviços "de grátis" tipo, o tarô do dia. Mas o mais legal de tudo mesmo é que um nunca tem nada a ver com o outro. Hoje, por exemplo, não sei se vou meditar numa montanha depois de me inscrever numa ONG ou se caio na gandaia.

TRÂNSITO DO PERÍODO: SOL NA CASA 12, LUA NA CASA 4 - 16/01 (hoje) às 14h a 18/01 às 22h - no período que vai de 16/01 (hoje) às 14h a 18/01 às 22h, procure se recolher um pouco mais, Kelen, pois a Lua, justamente na Casa 4, aumenta o potencial de introspecção do Sol, que transita pela Casa 12. A fase é excelente para retiros, meditações, mergulhos de alma. Que tal ficar sem ver ninguém por estes dias? Aproveite para fazer um trabalho de auto-análise, ler, ver filmes, a Lua na Casa 4 favorece muito as idas ao cinema, de preferência só, exercitando assim a sua capacidade de preservar sua individualidade. Este pode ser um período particularmente notável para você trabalhar mais a sua espiritualidade e a sua capacidade de doação. Que tal se voluntariar em prol de alguma causa nobre e altruística?

TARÔ: CARTA DO DIA - 3 DE COPAS - Abra-se ao prazer! - que tal se permitir ter mais prazer neste momento, Kelen? Há quanto tempo você não faz coisas de que gosta? Que tal relaxar e curtir mais a vida? O 3 de Copas surge aqui como arcano conselheiro, pedindo-lhe que permita abrir-se ao prazer, para que ele flua na direção do mundo e este lhe atenda, possibilitando situações felizes, festas, namoros (ainda que não necessariamente sérios), em suma, coisas que lhe distraiam e lhe permitam ter dias agradáveis, ao redor de quem você ama. Saia com os amigos, conheça novas pessoas, permita-se rir, conversar, conhecer os outros... estar no mundo! Você sentirá sua alma mais leve e perceberá as coisas a partir de uma perspectiva mais ampla.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Rapidinha de São Paulo

Dentre tudo que já consegui fazer aqui (além de trabalhar) em dois dias, destaco uma coisa que vai entrar pro Guiness:

FUI NA 25 DE MARÇO E NÃO COMPREI NADA.
Leia novamente: eu disse NADA!

PS1: o incrível é mais por ser eu do que por ser a 25;
PS2: também não comprei nada na Oscar Freire, mas aí já são - literalmente - outros quinhentos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Viajando na viagem

Ótimas definições, comentários e afins sobre viagens no site do Ricardo Freire.

"Toda viagem é uma extravagância. Metade da primeira classe deveria estar viajando na executiva, grande parte da executiva deveria estar na econômica e a econômica inteira deveria ter ficado em casa. Mesmo assim, viajamos."

Por sinal, ótima também a música de Celso Fonseca com Marcelo D2 (quem diria que um dia me renderia a ele...) com mesmo nome que dá título ao post, que me fez chegar ao site.

"Vivo preparando um viagem pra desaparecer
Sigo viajando na viagem sem sair do lugar."
 


domingo, 6 de janeiro de 2008

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A placa

E de repente me vi em ziguezague no meio da estrada. E lembro que os carros desapareceram dela, éramos somente nós. E a última coisa que lembro de gritar foi “A PLACA!”. Foram segundos. E se eu disser que nesses segundos passou o filme da minha vida na cabeça vou estar mentindo. Não passou porra nenhuma a não ser um medo sem fim de engolir aquela placa, que ninguém me tira da cabeça: Deus pegou com a mão e tirou ali da nossa frente.
Se o filmezinho não passou naqueles segundos, rodou sem parar nos últimos dois dias. E se tivesse acabado ali? E se tivesse tudo sido diferente? Era isso que eu teria vivido? Era assim que eu iria terminar, sem a sensação de dever cumprido? Não dizem por aí que o que se leva dessa vida é a vida que se leva? É essa vida que eu quero levar?
Ah, eu mereço muito mais que isso.
Obrigada Senhor, por me dar a chance de viver mais. E muito melhor. Era essa a mensagem escrita nas entrelinhas daquela placa.