quinta-feira, 1 de abril de 2021

Feioada de Páscoa

 Pensávamos no que comer amanhã na sexta-feira Santa. Guilherme sugere:

- Podíamos fazer a receita do Jacinto, feijoada de frutos do mar.
Minha cara deve ter respondido e então ele foi pro Google.
- No Panelinha não tem.
- Então esquece, não deve ser bom.
- Mas tem do Rodrigo Hilbert.
- Vamos ver melhor essa receita.
Quem vê a empolgação pensa que é o próprio que vai vir me servir.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Há muito tempo que ando

Sou uma caminhante. Nasci numa cidade pequena onde até o que é longe é perto e me acostumei a fazer tudo a pé. Sempre que viajo, pouco uso qualquer tipo de meio de transporte, nada como conhecer lugares caminhando. Sou uma apaixonada pelo cotidiano das ruas, pelas artes que habitam nelas. Tenho quilômetros e quilômetros de passadas pelas ruas das cidades que conheci ou vivi. Vim estudar em Porto Alegre há 27 anos e essa acabou se tornando a minha cidade, lugar onde certamente mais pegadas deixei. Independência, Petrópolis, Rio Branco, Auxiliadora, Moinhos, todos os que foram os meus bairros e que a cada nova caminhada me revelam algo que eu nunca havia visto antes. Já cruzei essa cidade das mais variadas formas, nos mais variados horários, nos mais diversos momentos de vida, passos que contam a minha história aqui. Já quis sair correndo daqui, mas voltei correndo também. Portinho tu é minha sina. Saudade de andar livre de verdade pelas tuas ruas. Feliz Aniversário.



segunda-feira, 15 de março de 2021

Cápsula do tempo - um ano de pandemia

Logo no início na pandemia recebi um material chamado "Cápsula do tempo" com atividades pras crianças fazerem relacionadas a esse período. Uma delas era a "Carta dos meus pais" onde a gente deveria escrever pra criança ler sobre esse período no futuro. Sinceramente não sei o que eu teria escrito há um ano atrás quando tudo começou, mas hoje resolvi escrever pra eles.

"Hoje faz um ano que a pandemia entrou pra valer nas nossas vidas. Vocês saíram da escolinha e por um período que pareceu infinito nós ficamos em casa, saindo apenas pro essencial: super, farmácia e o passeio com as cuscas. Música, pintura, livros, desenhos e muita comida feita em casa foram a nossa terapia (que nem sempre funcionou, diga-se de passagem!). Escrevi até um livrinho pra explicar pra vocês o que estava acontecendo. A sacada virou nosso "lá fora" e só abrimos uma exceção depois de quase dois meses quando fomos pra casa da vovó Luiza fazer um churrasco ao ar livre, evento que se repetiu pelos meses seguintes pra comemorar os aniversários da família. Ver vocês correndo incansáveis pelo pátio, o que deveria ser lugar comum na infância, parecia uma dádiva! Lá pelo meio do ano vi uma imagem que dizia que no início tínhamos muito medo e pouca chance de pegar o vírus e justo quando a chance de pegar aumentou muito perdemos o medo. Ou cansamos mesmo. Baixamos um pouco a guarda, visitamos e recebemos algumas pessoas. Longe da nossa vida normal, mas cada encontro nos enchia de felicidade! E assim os meses foram passando. Logo depois do teu aniversário, Lucas, que comemoramos em uma pracinha com alguns poucos amiguinhos, o vírus nos pegou. Foi leve e rápido, vocês nem sentiram. Mas por duas semanas, mais do que qualquer coisa, fiquei com muito medo de ter passado pra alguém, especialmente pros avós de vocês. Depois do contágio, um misto de medo e liberdade tomou conta, sabe? Estávamos teoricamente imunizados por um tempo mas nada havia mudado, o vírus seguia ali, e as máscaras e o álcool gel continuavam sendo nossos parceiros inseparáveis. Ainda que com todos cuidados mantidos, fomos a Gramado, a praia, ao clube, a pracinha. Tivemos o melhor verão possível dentro das possibilidades e eu confesso pra vocês que jamais pensei que seria tudo tão ruim e intenso outra vez, até a vacina já existia! Mas é março de novo e cá estamos nós, em casa, saindo apenas pro essencial, dessa vez com o medo e o risco bem alinhadinhos.
O último ano foi intenso, meus amores, mais ainda com todo um contexto que envolve a política do nosso país que eu prefiro nem comentar (se as coisas não mudarem tanto assim na educação, um dia vocês ainda vão estudar e tentar entender). Passamos muito mais tempo juntos do que jamais pensei que passaríamos. Tem grito, tem choro, tem cansaço. Mas muito mais que isso tem alegria, aprendizado e diversão. Nesse tempo que passou a Mel caminhou, tu desfraldou, o Rafa nasceu. Todos cresceram. Até eu.
Já me perguntei várias vezes como seria sem vocês. Mais fácil? Menos cansativo? Talvez. Mas bem menos leve e com muito menos amor. Olhar pra vocês é o que me faz ter esperança todos os dias. Esperança de que no próximo mês de março que a mamãe tanto ama a gente possa dizer: nem acredito, passou.

sábado, 13 de março de 2021

44 anos

Há um ano marquei um almoço pra comemorar meu aniversário. A pandemia tava batendo na nossa porta mas ainda não fazíamos ideia do que viria pela frente. A primeira amiga que chegou no restaurante me perguntou: Pode abraçar ainda?

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Abro parênteses pra uma confissão: não sou das mais abraçadeiras não. Se puder chegar naqueles eventos com muita gente e dar um oi geral vou ficar mais tranquila. Talvez soe antipático, mas tenho um lado não tão expansiva quanto as vezes possa parecer ser. Mas no meio dessa confissão abro uma exceção: o dia do meu aniversário. Esse foge a regra. Nesse dia adoro festa, seja íntima ou daquelas que tu não consegue parar pra falar com ninguém de tanto que serelepeia de um lado pro outro, mas na chegada do convidado independente do tamanho da comemoração ganha o melhor dos presentes: aquele abraço!
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Voltamos pra 2020. Minha resposta obviamente foi "É claro que sim!". E que saudade daqueles abraços! Claro que alguns poucos até aconteceram no último ano, mas sempre com um pouco de receio, com muito cuidado, não aquele demorado e apertado que aumenta instantaneamente a produção de ocitocina da gente, sabe?
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Hoje ganhei o abraço dos meus maiores amores. E vai ter festa! Ah vai! Vão ser apenas 5 convidados além de mim, inclusas aqui as cuscas na contagem. Mas a pedido do Lucas até temática a festa vai ser. Vai ter bolo, docinho, salgadinho, vai ter decoração feita a mão. Uma delas foi uma espécie de quadro negro que fiz onde deixei um espaço pra colocar o que eu desejo. Já desejei tanta coisa que a lista a princípio pareceu pequena. Vida. Saúde. Amigos. Amor. Paz. Abraços. E foi relendo ela que eu me dei conta do tamanho do meu desejo!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Super Musical

 Vesti eles pela manhã e anunciei:

- Então tá, hoje o Lucas vai ser o Super Homem e a Mel a Mulher Maravilha.

- Na verdade, mamãe, eu sou o Super Musical e meu super poder é a música!

E não tem kriptonita que acabe com esse poder.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Receita

Como fazer pão enquanto os filhos brincam com massinha:

1 colher de... Melissa, não joga no chão!

2 colheres de... Lucas, não tira a forminha dela!

170gr de... Não misturem essas massas!

1 xícara de... Ah, tá uma delícia essa tapioca de massinha, Lucas!

2 xícaras de... Tá, a mãe já comeu tapioca suficiente.

8 colheres de... Guilherme, eu tava contando!

Misture tudo é torça pra dar certo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

48 horas

Fiz um pedido de Natal inusitado nesse ano que passou. Preciso de um celular novo, de panelas novas, quero muito uma composteira. Mas pedi 48hs pro meu marido. 48hs sem filhos, sem marido, sem cuscas, sem louça, sem  arrumar cama, sem trocar fralda, sem limpar xixi na sacada, sem brincar, sem desenhar, sem cozinhar, sem insistir pra comer, sem dar banho, sem fazer dormir, sem lavar, sem estender, sem guardar, sem juntar, sem arrumar, sem levar pra passear, sem juntar cocô, sem juntar brinquedos. Sem Bita, sem Patrulha, sem Popó, sem Mickey, sem Blaze, sem Globo News. Sem pedir pra colocar fora a caixa de leite que ficou em cima da pia, sem recolher copos, nem roupas. Ganhei de brinde 48hs sem internet, porque não pega  por lá. 48hs sem essa produção louca e desenfreada de adrenalina, endorfina e ocitocina que é ter uma família linda e completa. Vão ser também minhas primeiras 48hs sem ouvir nenhuma vez a palavra mamãe, aquela que ouvi pela primeira vez há uns 3 anos e meio e que desde então é a palavra que ouço inúmeras repetidas e incontáveis vezes diariamente. E é tão maravilhoso e eu quis tanto que... vai ser bom sentir falta de ouvir! 48hs minhas. Me belisca.

Observação pós retiro: Se eu senti saudade? Senti. Tanta quanto eu estava de ser só Kelen por um tempinho que fosse. A maternidade nos transforma totalmente, mas acho que seremos mães muito melhores se conseguirmos cultivar a essência do que éramos antes disso.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Apenas mais uma segunda-feira qualquer

 Eu poderia ficar em casa inventando brincadeiras, ou deixar eles inventarem. Mas inventei foi de ir passar a manhã na piscina do clube. A saga inicia as 9hs pra conseguirmos sair as 10:30. Arrumo as camas, coloco sunga, maiô, biquíni. Tomamos café da manhã. Enquanto Lucas quer tudo, Mel não quer nada. Ovo mexido. Não. Manga. Não. Mas meu leite de aveia com chocolate ela manda ver enquanto busco mais uma alternativa. Iogurte com chia, finalmente. De quebra ainda lanço umas mangas no pote "sem querer". Passo protetor nos dois e em mim. Pego fruta, água, brinquedo, toalha, bóia, uma roupa seca, fralda, óculos, máscara. Partiu. Elevador, escada, cadeirinhas, carrinho no bagageiro, sento no volante."Mãe, tu podia colocar a música da Popó?". "O celular tá lá atrás e eu não vou pegar agora, Lucas", "Ahhh...", "É com a música da mamãe ou voltamos pra casa." Silêncio, amém. Saio da minha odiada e milimétrica vaga, em cinco minutos estou no clube. Lá vamos nós. Carrinho, tralharedo completo, filhos. "Quero ir no carrinho, mãe". Aquele que carrego junto só pra jogar tudo em cima e facilitar minha vida. "Sobe no carrinho, Lucas.". "Mamãe!", "Vem no colo Mel...". E lá vamos nós no formato bem menos fácil. Temperatura, álcool gel, rampa, tira roupas, bota bóias, pega brinquedos. Ufa.

O ufa é só porque cheguei no destino, porque de ufa não tem nada. Passo uma hora e meia me dividindo entre piscinas, alcançando brinquedos, brincando de pegar, apartando brigas até que... "Mamãe, fio". Busco a camiseta, coloco por cima do maiô. "Mamãe, fio". "Quer sair, Melissa?", "Sim!". Vejo o Lucas lá do outro lado da piscina. Grito por ele, inutilmente. Enrolo a guria na toalha. Deixo ali quietinha, vou resgatar o outro filho e os brinquedos. No meio da caminho vejo a miniatura vindo em direção a piscina sem bóias e dou meia volta. Assim que ela senta na beira da piscina percebo aquele recheio na fralda encharcada. Junto a criança e levo na cadeira. Grito pro Lucas vir, inutilmente. Tiro a camiseta pra conseguir tirar o maiô pra conseguir chegar no estrago. Haja lenço. Faço o possível, levo no chuveiro enquanto meu outro filho me ignora solenemente da mesma forma que a outra mãe  que está na piscina e que não se move nem se solidariza e grita "deixa que eu cuido dele". Consigo limpar a guria, vestir uma fralda e graças a um pote com morangos e água mantenho ela quietinha enquanto resgato o outro filho. Ele fica ali paradinho do lado da cadeira e me comunica: fiz xixi.

Ótimo! Super legal. Jogo um balde de água e considero limpos: o filho e o chão. Seco, visto, seduzo com morangos e volto pra recolher brinquedos espalhados pela piscina. Coloco o vestido em cima do biquíni molhado e quando vejo tudo pronto pra voltar pra casa menos de duas horas depois de ter chegado chega a me dar um tiquinho de raiva. Filha no carrinho, filho a tiracolo, máscara, rampa, carro. Despejo tudo nos seus devidos lugares, sento no volante e ligo o rádio. "Born to be wiiiiiiiild". Fecho os olhos por dois segundos e me tele transporto pra montanha russa da Universal Studios onde escolhi essa música pra curtir o trajeto. E eu que achava que aquilo era emoção... Interrompo meus loopings com o Lucas no meu ouvido "Mamãe, agora tu tá com teu celular, pode colocar a Popó?".

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020

2020. Não tentem me convencer de que foi um ano bom. Ah, não foi. Foi um ano ruim onde eventualmente aconteceram também coisas boas que somadas a muita aceitação, resiliência, outras tantas palavras bonitas e uma boa dose de paciência, salvaram a nossa sanidade mental.

Na obrigação de fazer comida em casa todo dia, aprendi a cozinhar em fogo baixo, sem pressa e entendi que demora mais mas para ficar muito melhor, e isso não vale só para o ato de cozinhar.

No desespero por conseguir entreter (e entender) crianças integralmente, fiz um curso de brincar e meus brinquedos de papelão me deram uma aula ao me mostrar a beleza da imperfeição, o feito tão melhor que o perfeito, e isso não vale só para brinquedos de papelão.

Com os meus filhos, aprendi a ser mãe como nunca, ainda que muitas outras Kelens tenham se anulado em função disso, e isso não é bom e não vale só para os filhos. 

Na divisão das tarefas com o marido, percebi como dividir de uma forma que fique bom e justo para os dois lados é difícil e como aceitar esse desequilíbrio cansa e desgasta, e como se manter unidos ainda assim é difícil, e isso não vale só para o casamento.

Ao estar na rua, aprendi que distâncias são realmente necessárias certas vezes e que isso não é obrigatoriamente ruim, e isso não vale só para o distanciamento social.

Ao estar em casa, percebi o quanto estar feliz com o que temos e com quem somos é fundamental, e isso não vale só para a pandemia.

Ao estar longe, descobri quem está perto independente da distância e isso diminuiu círculos mas aumentou laços. A gente sofre mas isso ajuda a nos fortalecer e isso,  definitivamente, não vale só para 2020.

Para o ano que começa amanhã, tenho poucas expectativas, alguns planos, muitos desejos. Um deles, é que todas essas coisas boas que houveram em 2020 sigam comigo, pois me ensinaram muito e ajudaram a segurar as pontas nessa loucura toda (que ainda estamos vivendo). E que as coisas ruins não apenas percam energia como também devolvam a nossa. 

2021, seja bom. Eu prometo que vou fazer a minha parte.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Domingo no parque

Vamos pro parque? Põe o tênis, Lucas. Ele não quer ir. Pegou as águas? Quer ir de triciclo? Aqui do lado? Sobe, Mel. Vamos, Lucas? Pega a mochila. Pegou a chave? Cadê a máscara. Senta, Mel. Lucas, faz favor? Desliga a TV. Melissa, pára. Tchau, Lucas. Põe o óculos. Anda Guilherme, entra. Passo por cima? Deixem o pai de vocês entrar! Eu quero apertar. A mãe aperta. Eu que queria apertar. Não tem como, Lucas. Desce. Dá a mão. Não quero mais o óculos. Chega no parque. Quadras ocupadas. Quero brincar aqui. Não dá, vamos no Parcão. Eu quero colo. Ah, o triciclo... Vai indo, vou buscar o troço do carrinho em casa. E a carteira! Volta. Encontra o trio. Pararam? Lucas não quer ir. Com quem tu vai pra casa então, Lucas? Eu quero ir sim. Então chega de choro. Agora tu, Melissa? "Cê! Cê!". Já vai descer. Vou indo com ela, leva o carrinho. Lá vai ela lomba abaixo. Lá vem ele feliz. Cada um prum lado. Brincam. Caem. Levantam. Correm. Cadê a Melissa? Olha a bolha! Compra bolha. Olha a bola! Compra a bola. Santa carteira. Peço almoço? Pede almoço. Brinca no líquido da bolha. Aí não, Melissa. Deixa, Guilherme. Busca água. Lambuza tudo. Lava de mangueira. Chega, Mel. Toma o chimarrão. Ela tá virando tudo. Deixa virar. Come morango. Senta, Lucas. Chega, Lucas. Vem na garupa. Não, Mel. Desce, Lucas. Que tu quer, Mel? Calma, Lucas. Aí não, Mel. Volta, Lucas. As pessoas olhando. Não tem filhos? Quer ajudar? Vai na frente. Chega, Melissa. Vai no colo sim. Entra, Lucas. Cachorras latem. Calem a boca. Deixa as cachorras, Guilherme. Vem pro banho, Lucas. Calma, Melissa. O papai disse que a cabeça dele tá doendo, mamãe. Entra, Lucas. Já vai, Mel. Não quero lavar o cabelo. Vai lavar sim. Vamos, Mel. Já volto Lucas. Pega o nenê. Tira ele, Guilherme? "Mamá!". Vamos pegar. Ouve a voz do pai dizendo que não é hora de mamá. Foda-se a hora. Pega teu mamá. Olha a Tainá! "Telas só depois do blá blá blá". Te veste! Fica pelado então. Põe pelo menos a cueca. Interfone. Cachorras latem. Marido rosna. Chegou o almoço. Busca. Toma uma polenta. A Pulga pegou. Toma outra polenta. Lucas veste a cueca. Mel brinca. Marido se acalma. Eu também. Vou fazer minha limonada. Onde eu tava com a cabeça quando prometi não beber até o fim do ano? Meu mundo por um balde de caipirinha. O quê? Ainda é uma hora da tarde??? Socorro.