Semanas atrás depois da avaliação do trimestre na escola, percebi que precisávamos conversar (ainda) mais com as crianças. O problema é que a hora em que eles mais querem falar, a hora que vem tudo e mais um pouco à mente, é na hora de ir dormir. E nessa hora, bem nessa hora, tudo o que eu mais quero é não falar mais sobre nada, ler o livro escolhido da noite até eles pegarem no sono e só. Mas se essa é a hora que temos, essa é a hora que usaremos. Quando fomos deitar naquela noite expliquei que, a partir de então, toda noite que eles estivessem comigo a gente conversaria sobre todos os trelelés que tivessem acontecido durante o dia. Não sei nem de onde saiu aquela palavra, mas desde então ficou instituída a hora do trelelé. E nessa hora vem de tudo. De coisas desencavadas de anos atrás à coisas certamente inventadas. Acontecimentos ora fofos, ora bobos. Mas no meio de muita bobagem, vem muita coisa importante também, como se falar besteiras ajudasse a chegar nas questões verdadeiras. E aí aparecem incômodos reais que consigo ajudar a resolver, a entender, a saber como lidar, a mostrar o outro lado, a explicar que nem sempre temos razão, a mostrar que muitas vezes precisamos dividir a responsabilidade do que acontece com a gente, que a culpa nem sempre é (só) do outro. E acima de tudo, consigo acolher. E quando as cabeças esvaziam, se tranquilizam de tal forma que eles dormem antes de eu virar a primeira página do livro.
[e eu que durma com os meus trelelés somados aos deles também]