segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A minha criança

 Tenho procurado na minha criança muito do que explica a adulta que me tornei, e está incrivelmente quase tudo lá. A parte boa e a parte ruim. As minhas coragens e os meus medos. As minhas vontades e os meus segredos. Meus sonhos e pesadelos. Costumam dizer que precisamos manter a nossa criança viva dentro da gente. A frase soa linda, como se a nossa infância trouxesse pra nossa vida apenas o lúdico, o colorido e o feliz ou a capacidade de imaginar, inventar e sonhar. Como se a nossa criança não carregasse também todo um outro lado de lembranças ruins, traumas e assombros que fizeram parte desta mesma infância. Acho que o maior problema de nós adultos, é acabarmos carregando muito mais da segunda parte do que da primeira.

Meu desejo diário é que meus medos não me travem, que minhas vontades sigam me movendo, que meus sonhos não se percam. Que eu use a energia daquela guriazinha, que eu nunca perdi, pra reacender cada vez que a vida me apagar. Que eu mantenha a minha emoção, mas que nunca deixe ela me cegar. Que eu use a minha mente aberta pra cada vez mais entender, aceitar e curar as feridas dessa criança que eu fui. E que assim eu consiga carregar a melhor parte dela pra sempre em mim.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Cansaço

Hoje acordei cansada e resolvi adiar minha rotina matinal pra hora do almoço. Me enrolei o que pude pra sair da cama de onde ouvi um episódio do "Projeto Meditar", canal que descobri e que uso pra dormir quando a cabeça não tá desligando no automático. O tema era a romantização do cansaço e confesso que, mesmo cansada, tive uma vontadezinha de acelerar o áudio, mas respirei fundo e fui no ritmo certo. Ainda numa preguiça sem fim na cama, no rolar de tela costumeiro, caí no post do Andre Carvalhal sobre a morte dos pequenos rituais. Me peguei pensando na contradição de como eu, acelerada e elétrica, gosto tanto de coisas como ouvir um disco numa vitrola (ainda que já tenha gritado pra ela “Alexa, baixar volume”) ou ficar na janela observando os passarinhos, e o quanto eu deveria usar mais dessas pequenas pausas pra acalmar esse corpo e essa mente. Lembrei de um livro chamado “onde foi parar o nosso tempo?” que lá em 2010, já falava dos hábitos que abandonamos pra tornar a vida mais “simples” (?). Com tudo isso na cabeça e tão cansada quanto acordei (mas sem romantizar isso), fui cumprir a meta da corrida do dia ainda que tardiamente e ainda que sem vontade. Foi então que tive que parar depois de 4km, num misto de dor e exaustão. Por que eu não me ouvi? Postei sobre isso justamente porque adoro as conversas que isso gera, e imediatamente um post da Vida Simples chegou pra mim “O caminho é estar presente, respirar e dar atenção ao que se sente”. Adoro a Vida Simples desde quando comprava ela na banca, coisa da lista das coisas que, como bem disse o André Carvalhal, faz tanta falta, assim como descansar, parar, desligar, desconectar. E não se culpar por isso.

“Vivemos numa época em que exaustão é sinônimo de status e a conexão humana é uma raridade. Adiamos o descanso como se ele fosse um artigo de luxo e rolamos o feed interminável, evitando o silêncio a qualquer custo. Porém, em algum ponto entre a performance excessiva e a ansiedade paralisante, uma pergunta insiste em ecoar: Do que tanto fugimos, a ponto de não pararmos um minuto sequer para estar a sós com nossos pensamentos?”
(Trecho de Vertigem, da Lela Brandão, que estou ouvindo no Audible, sem acelerar)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Dama da Noite

 Há dois anos quando meus pais venderam a casa onde moraram por cerca de 40 anos, fizemos um churrasco no pátio de despedida. Durante este dia, meus irmãos e afilhados jogavam sacos cheios de quinquilharias guardadas no sótão, que eu revirava com gosto e sempre catava alguma coisa pra trazer pra minha casa. Uma boneca Bem-me-quer sem roupa, um patins que ainda não serve em ninguém, a caixa de iogurte daquele restaurante macrobiótico delicioso, meus trabalhando do Jardim de Infância. A casa não poderia ir embora sem eu levar um pedaço dela, ou ao menos da história que a gente viveu ali. Escolhi também algumas plantas, dentre elas uma Dama da Noite que ficava na varanda do quarto que havia sido primeiro da minha avó, e alguns anos mais tarde o meu. Minha mãe me explicou que a flor durava um noite apenas e desde então fiquei na expectativa de quando ela viria. O que descobri em seguida é que ela realmente dura uma noite só, mas são várias delas ao longo do ano. E a cada botão que surge, eu fico atenta ao processo para poder observar e registrar. Esta semana, uma dupla apontou ao mesmo tempo. Passei a observar todos os dias até que quinta percebi que elas iriam desabrochar e resolvi registrar. É como um lindo orgasmo da natureza, sabe? Elas se excitam, enrijecem, abrem, exalam o melhor perfume, explodem e murcham. E eu acompanho cada um deles feliz por ter trazido esse pedacinho de casa pra cá.

Eu tenho essa coisa de apego. A lugares, a coisas, a pessoas. Por isso minha casa é esse grande relicário. De histórias, de viagens e até de pessoas. São minhas relíquias sagradas que fazem eu voltar no tempo por minutos só de olhar. Tenho aprendido (ou tentado aprender) a me apegar menos a tudo, o que é muito difícil, pra quem tem tanto amor pra dar. Tenho aprendido que nem todos ciclos se fecham da forma esperada, as vezes se rompem, seja uma casa vendida ou uma história mal acabada. Talvez a Dama da Noite venha me ensinando que nem mesmo os ciclos que se fecham terminam bem, mas isso não tira a beleza do que houve nele.



quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Feliz Natal

Natal é a data do ano que mais nos ensina a dividir, desde que somos pequenos. E falo em dividirmos bem mais que presentes, panetones ou que as disputadas coxas do peru. Dividimos um tanto os nossos corações.

Quando eu era criança, dividíamos as nossas noites entre o Natal na nossa casa com parte da família da minha mãe e o Natal na casa da minha avó paterna e sua enorme família. Em determinado momento deixamos de dividir nossa noite, mas meu pai continuou se dividindo.

Ao longo dos anos da minha adolescência e em seguida na vida adulta, quando estava namorando, nos dividíamos por eu ser de outra cidade, e cada um passava o Natal com a sua família, ou às vezes, alguém abria mão de estar com a sua, dividia o coração e passava com a família do seu par.

Quando casei, virou regra nos dividirmos por ano, e a cada Natal passávamos com uma das famílias. Essas divisões nunca foram fáceis, queremos sempre estar com os nossos familiares, costumes ou tumultos Natalinos. Mas pelo outro, dividíamos.

Provavelmente quando estávamos nos acostumando a isso, veio a separação, e agora, são meus filhos que começam a aprender a se dividir. A ceia do dia 24 em Gramado com a família da mamãe, o almoço do dia 25 em Porto Alegre com a família do papai. Uma véspera feliz pra mim e difícil pro pai, e no dia seguinte, o inverso. Essa divisão dói, afinal é Natal, queremos estar com os nossos, né?

Mas espero continuar conseguindo fazer isso carregando o espírito de Natal dentro de mim: mesmo que com essa pitada de dor e tristeza, também com amor e leveza.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Novembro

Novembro se foi
E eu também
Mas fui até ali e voltei
Corri, parei e já recomecei
Gargalhei e chorei
Revivi e vi que superei
Senti, resisti, segurei
Desembaracei jibóias e operei
Andei de balanço e dancei
Brinquei e também briguei
Comemorei e por fim descansei
Coube quase um ano em novembro
Que respeitou melhor o tempo
Mas agora é o ano se indo
E dele já nem sei.
2025 teve seus versos
Mas não foi exatamente poético
Vai que com uma rima
dezembro entra no clima. 

sábado, 18 de outubro de 2025

Quem escolhe deixa

 Há uns 30 anos, tive um professor que me ensinou: quem escolhe, deixa. E taí uma coisa que não sei fazer: escolher! Qual prato do cardápio, qual sobremesa do buffet, qual série no Netflix, qual dos eventos marcados no mesmo dia (quem sabe uma passadinha em todos?), imagina as decisões importantes então? E tudo isso por medo de escolher errado e deixar o certo de lado. 

Hoje era dia de escolha.

Cansada do sábado (e da semana, e do mês, e muito provavelmente do ano), com ingressos comprados pra um show infantil, não sabia se mantinha a programação combinada com as crianças, ou desperdiçava ingressos, tomava um energético e ia pra Gramado comemorar o aniversário da minha mãe, bem mais importante afinal. Mas aí para, pensa na estrada, no dinheiro gasto, na expectativa das crianças, sai pra correr, sofre, compra presente, lembra que tá exausta, vai buscar as crianças que dormiram fora, nem tira a roupa da corrida, mas pega o presente. Decisões contraditórias da maluca da indecisão. Pois então tive a ousadia de entregar na mão da Mel a escolha.

- E aí Mel, o que a gente faz?

A primeira resposta foi aquela esperada: eu queria fazer as duas coisas! Bem vinda ao meu mundo, Mel! Conversa daqui, analisa dali, com o carro parado, virei pra trás e insisti:

- O que a gente faz?

Eis que então ela começa a chorar e grita:

- Eu não consigo escolher, mamãe!

Ah, meu amor, me perdoa. Eu te entendo tão, mas tão bem. Quem escolhe, sempre deixa. Mas acredita, nem sempre escolhe errado.

domingo, 28 de setembro de 2025

Poção do sono

As crianças ganharam um livro de magia da minha irmã. Melissa comunicou que a primeira poção que a gente faria, seria a poção do sono, porque as vezes ela tem muita dificuldade de dormir.

O leite morno da noite com uma gota de sonho (baunilha), um quase nada de pó encantado (canela) e algumas palavras mágicas (algo do tipo pirlimpimpim, poção mágica faça as crianças dormirem fácil assim!), viraram a poção do sono.

Lucas, pragmático, me pergunta desconfiado:

- Mãe, quando faz efeito e a gente começa a se acalmar?"

Incentivo ele a imaginar

- Lembra que se tu acreditar, vai funcionar!

Mel, sonhadora, nem pestaneja:

- Eu já tô até me sentindo relaxada, sabia que ia dar certo!

Um livro e três poemas depois, só eu seguia acordada. Certamente porque não bebi a poção.

"As pessoas sem imaginação, podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

(Mário Quintana, Lili inventa o mundo)


sábado, 27 de setembro de 2025

Sábados

Primavera me faz bem. Acordar num sábado de sol me deixa feliz. Parei numa sinaleira e me distrai cantando. Eu adoro essa música. Ouvi uma buzina e voltei a mim. Ele gesticulou com as mãos. Eu me desculpei. Paramos na próxima sinaleira. Ele voltou a gesticular. Eu mandei um beijo. Ele fez aquele gesto de "tu precisa de um pau bem grande". Eu fiz um coração com as mãos. Ele fez aquele gesto "tu precisa trepar". Eu não acreditei que um velho do lado de uma mulher idoda estava estava fazendo aquilo. Ele passou do meu lado e parou na próxima sinaleira. Eu fotografei o carro dele. Ele se assustou e assim que pode saiu da minha frente. Sem dar seta. Que teus desejos se realizem, meu senhor, eu ainda posso, já o seu querido não deve subir há tempos, talvez por isso tanta amargura.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Imigração

- Vacaciones?
- Trabajo.
- Cuantos dias?
- Tres.
- Casada?
- Um poco.
- Perdón?
- Un poco cansada.
- No, casada o soltera!
- Ah! Soltera. No! Casada! Digo, casada pero soltera. És conplejo...
- És chisme?
- Mira. Dejalo cansada!

[inmigración es cosa seria]

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Desculpa, não vou

Dia desses em uma reunião, um engenheiro começou a me desrespeitar. Um comentário desnecessário, uma grosseria gratuita, um sorriso irônico, até que minha calma, que muito aumentou com o tempo mas ainda se esgota facilmente, me fez levantar a voz. Imediatamente recebi uma mensagem de uma pessoa na mesma reunião: você é braba, hein? Ficou a dúvida se o engenheiro em questão teria recebido alguma mensagem crítica também.

Ontem sentei em uma mesa de bar com uma amiga que consigo encontrar muito menos do que gostaria, e em minutos havia um sujeito bêbado e inconveniente, debruçado na nossa mesa, jorrando cuspe ao falar com a língua enrolada, colado em nós. "Boa noite, o que tu vai pedir? Não, pede um negroni, posso incomodar vocês?" Sorrindo, respondi a minha bebida, avisei que não, nem eu pediria um Negroni, nem ele poderia incomodar. Ainda inconvenientemente e jorrando cuspe recebi um sonoro "que grossa".

Cito os dois últimos casos, de inúmeros.

É um estigma que carrego. Ser direta, honesta, em geral séria, muitas vezes dura, tudo isso transformado automaticamente em grossa, que sim, muitas vezes também sou. Assim como sou espontânea, debochada, divertida, irônica, sensível, carinhosa e amorosa. Nos momentos e com as pessoas certas.

Mas vivemos numa sociedade onde temos que baixar a cabeça ou sorrir pra tudo e todos. Não podemos revidar à grosserias com grosserias ou mesmo ironias. Devemos ser atacadas, interrompidas, agredidas, silenciados, desrespeitadas, ofendidas, invadidas, sorrindo, educadamente, e em silêncio se for possível.

Desculpa, não vou.