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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Feito por mulheres

Chamei um Uber a pouco. Assim que aceitou a viagem, a motorista enviou uma mensagem "meu gurizinho está junto comigo, algum problema?". Respondi automaticamente: "nenhum". Assim que ela chegou vi que o gurizinho era mais velho, sentava no banco da frente, diferente da cadeirinha de  criança que eu já visualizava do meu lado e que ainda assim não teria me causado incômodo. Victor, o gurizinho, não seria nem percebido por mim, totalmente escondido pelo encosto do banco do alto dos seus 11 anos. Mesmo eu já tendo respondido que não tinha problema, ela se desculpou, explicou o feriadão na escola e que ela não podia ficar sem trabalhar. Falei que ela tava falando de mãe pra mãe, não teria como eu não entender! Mas perguntei se ela já tinha recebido algum não. "Vários!". Viagens canceladas e até mesmo a resposta de uma pessoa dizendo que não se sentiria a vontade. Tá certo, é um direito da pessoa. Mas fala sério, quanto táxi fedendo a cigarro ou motorista escroto tu já pegou na vida que tu não te sentiu a vontade mas encarou? Quase perguntei sobre o pai, mas não ousei. Se ele existe, ainda assim o papel de ficar com o gurizinho tende a ser da mãe. O que custa ajudar essa mãe?

Isso aconteceu hoje, no mesmo dia que li as enxurradas de críticas à jornalista da Globonews com uma fala pra lá de machista em relação a futura primeira dama e suas funções. Ah, colega, quer falar do papel dela fala, mas depois não vem criticar os brados do "imbroxável", talkei? O título "primeira dama" pode parecer pomposo mas estamos em 2022 e não em um episódio de Bridgerton (salve Eloise!). Olha. Não é moleza ser mulher. Não é moleza provar a nossa capacidade todo santo dia, assumindo os nossos papéis de praxe perante a sociedade e batalhando por todos os outros que efetivamente queremos e podemos assumir.

Escrevo isso diretamente de um café onde a senha é o título desse post. Certeza que muita gente achará ridícula, coisa de feminista. Ou ainda nem vai entender a relação dela com os outros dois assuntos do texto. Coisa de gente que não entende a força que a gente precisa fazer pra mostrar a força que a gente tem.

sábado, 4 de maio de 2019

Talita Flores

Parei na pequena e querida floricultura perto de casa pra comprar algumas plantas novas. Expliquei pra sorridente atendente o que queria.
- Oi, eu queria três suculentas pra substituir minhas Onze Horas que as formigas destruíram.
Ela, cheia de vasos de suculentas na sua frente, me respondeu:
- Ah, não se preocupa. É o clima, isso acontece com a Onze Horas nessa época. Na primavera ela floresce de novo. As formigas só se aproveitam da situação, mas é natural. O que tu pode fazer é colocar umas cascas de árvore e esperar.
- Sério? Nossa, tu acabou de perder tua venda então, mas se tu tiveres casca de árvore vou levar.
- Tenho sim.
- É mesmo uma época difícil, tenho mais umas duas que parecem doentes.
- Quais são?
- Uma é a Dinheiro em penca, sabe? Tá com vários caules feios, ficando com poucas folhas.
- Deve ser água demais. Para de molhar tantas vezes, no máximo borrifa água nela.
- E a outra é uma suculenta.
- Esquece elas nessa época. E usa essas pedrinhas brancas pra isolar a folha da terra ainda úmida. Olha a terra dessa que está linda, é seca! Essa aqui tô recuperando pra uma cliente, e olha essas? Coloquei aqui pra recuperar, é meu cemitério!
Olho para um vaso cheio de plantas verdinhas brotando.
- Tá mais pra hospital esse cemitério, hein? Vê pra mim um pouco de pedrinhas? Nossa, tenho uma igual a essa que era linda e está super caída.
- Essa é a Sissus, ela precisa de muita luz.
- Ela já tá bem perto da janela.
- Mais luz que isso, coloca na rua!
Peguei meus saquinhos de pedras e cascas e agradeci a aula. Não sem antes pegar o cartão dela, que me disse que visita as casas das pessoas, faz uma análise de todas as plantas e volta pra fazer o trabalho de ajustes e recuperação. E o mais importante, que ama fazer isso. Como se o brilho nos olhos dela a cada explicação não deixasse isso claro!

quinta-feira, 29 de março de 2018

Feliz ano novo

Ganhei de aniversário uma daquelas sessões de massagem relaxante. Escolhi fazer ela no dia de hoje pra encerrar não só uma semana mas também um ciclo. Desliguei o telefone e tentei desligar também o cérebro enquanto ouvia músicas melancólicas instrumentais e aquela estranha massageava meu corpo. Foi bem mais fácil manter o celular desligado do que tudo que estava na minha cabeça. Aquele momento desencadeou um turbilhão de pensamentos e sentimentos e em minutos lágrimas escorriam sem esforço algum.
Nos últimos meses por duas vezes vi meu marido ficar doente, receber como diagnóstico doenças de nomes estranhos e ter que fazer exames com nomes assustadores. Por duas vezes pedi em silêncio pra que não fosse nada grave. Por duas vezes fiquei com medo de perder ele. Por duas vezes respiramos juntos aliviados depois.
Nos últimos meses por duas vezes engravidei. Por duas vezes comemoramos ainda que um pouco assustados com a novidade. Por duas vezes a gravidez interrompeu.
Nos últimos meses pensei o quanto deixamos a vida passar sem aproveitar de verdade, sem se entregar, deixando as coisas realmente importantes sempre pra depois. O quanto não nos damos conta que o tempo está voando e que estamos envelhecendo ainda que a gente siga se sentindo eternamente jovens.
Não quer casar não case. Mas se envolva, se permita, ame, se divirta, viaje, ria. A um, a dois, a três, a quantos quiser.
Não quer ter filhos não tenha, mas se quiser, não fique esperando a hora certa, ela não existe. Tente, investigue, congele, ache um parceiro, faça sozinha, faça o que precisar fazer enquanto há tempo. Só não fique esperando a banda passar. Nem sempre ela canta coisas de amor.
E entre risadas do Lucas, latidos das cuscas e móveis que não cabem nos espaços, a gente segue a vida de cabeça erguida porque ela é muito curta pra não ser assim.
Por isso tudo que esse ano vou ressignificar a Páscoa. Ela vai ser aquele momento de recomeçar e acreditar que daqui pra frente tudo vai ficar melhor.
Feliz ano novo!

domingo, 3 de setembro de 2017

Run baby run

Saí pra correr ontem a noite querendo um pouco mais que cruzar a linha de chegada. Queria muito que a cada passada agosto e os problemas que vieram com ele ficassem pra trás. Problemas que culminaram com férias canceladas, uma frustração com a qual não estava sabendo lidar. Com meu fone de ouvido esquecido em casa, fiz uma corrida silenciosa, e enquanto minhas pernas corriam pela beira do rio, meus pensamentos corriam pelos monumentos de Roma, pelas ruelas de Siena, pelos campos da Toscana, pelas pontes de Florença, pelo colorido de Cinque Terre, pelos canais de Amsterdã. Pensei eu que quando cruzasse a linha de chegada viria junto um turbilhão de lágrimas que insistiram em não cair em nenhum momento nas últimas semanas. Mas tudo que fiz ao encerrar a prova foi soltar um grande suspiro. Talvez porque tenha finalmente me dado conta que a vida é muito curta pra sofrer com as nossas frustrações. Ou tenha me dado conta que a vida é muito curta pra sofrer. Ou simplesmente que a vida é muito curta.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Cabelo, cabeleira

Sobre a quantidade de cabelos perdida: suficiente pra produzir uma peruca. Por dia. Reproduzindo o cabelo da Maria Bethânia.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Sentidos

Varal de roupas passando na beira da praia. A vizinha de guarda sol, com seu biquíni e celulite beirando ao zero, levanta pra olhar. Faz negociações em portunhol com o vendedor e pede pra que ele entregue as peças escolhidas na portaria do prédio, informando a ele o apartamento e dizendo que vai deixar o dinheiro. Levanto pra olhar as roupas também enquanto o vendedor, que agora conversa com minha irmã, pergunta qual o nosso apartamento. Pra não fazer confusão interrompe:

- Un momentito! Cual el apartamento de la otra chica?
E neste momento meu marido até então em silêncio se manifesta:
- 1401!
- Ah tu tava prestando atenção na "conversa" da vizinha?
- Tô sem óculos, não tô enxergando nada!


Mas pelo visto a audição ficou bem aguçada!

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Fracasso

Às vezes me emociono e acabo me inscrevendo para em newsletters de sites demais. Referências de arquitetura, tendências de design, dicas de iluminação, foco em empreendedorismo, slow food, viagens, entre outros. Tempos atrás entrei na onda de descobrir o meu propósito. E lá se foram uns quatro sites ou blogs que passaram a me enviar dicas motivacionais, videos, encontre seu propósito, descubra seu eu interior e daí por diante. Um deles era chato e repetitivo, me sentia lendo um livro de auto ajuda diariamente (os outros também fazem isso, mas disfarçam melhor). Não tive dúvidas: cancelar assinatura. Inspirei aliviada e quando expirei entrou uma nova mensagem na minha caixa de emails:
"Você desistiu? Será mesmo que foi isso?"
Obrigada amiga! Tava precisando mesmo me sentir uma fracassada nesta quinta-feira chuvosa por cancelar uma maldita assinatura de e-mail!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ciclos

Um cabeleireiro me disse que o nosso cabelo tem ciclos, e que a cada sete anos ele muda. Pois tenho certeza que, respeitando os ciclos da natureza e do humor feminino, ele vai ser crespo quando a gente queria ele liso e liso quando tudo que a gente mais queria era um cabelo bem crespo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Uma ponta de esperança

Perdi meu celular no Safe Park do Instituto Ling ontem a noite. A chave ficou com o manobrista, o Sr. Carlos Alberto, e queria muito acreditar que o celular estava guardado, independente de ter sido achado no carro ou no chão. Depois de verificar pelo localizador do Google que realmente estava no Ling, voltei lá hoje de manhã.
.:.
Sabe aquela história de pessoas bonitas por dentro e por fora? De que nada vale se a pessoa tiver uma aparência linda se por dentro isso não corresponder? Acho que deve valer também para lugares. O Instituto Ling é das obras arquitetônicas atuais mais bonitas de Porto Alegre. E a equipe que trabalha dentro dele faz jus a essa beleza. Do rapaz do estacionamento, passando pelo responsável pela organização, as moças da limpeza, os seguranças até chegar na moça da recepção, só fui atendida por gente educada e bem disposta. E isso num horário que somente o estacionamento estava funcionando. Pois bem. Meu celular foi encontrado, não sei se por algum visitante ou por algum funcionário. O importante é que foi entregue na recepção. Talvez essa fosse a situação obviamente esperada, mas sabemos que não é a situação normalmente encontrada. Então, quando tenho quase certeza que perdi a fé na humanidade, acontece uma coisa dessas e tenho uma nova ponta de esperança.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Extição dos vagalumes

Cada vez que escrevo em um e-mail "aguardo retorno" e fico eternamente aguardando, morre um vagalume.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Gratidão

Acordei hoje com um presente na conta e esta mensagem no meu e-mail:
"Por ser uma menina bonitinha, queridinha e muito pimentinha o Papai Noel deixou um presente para você usar em suas férias, faça bom proveito junto com seu amado, não esqueça: a vida é uma estrada sem volta não esquente demais, faça ioga (Ohmmmmmm) tudo sempre terminará bem. Cultive o espiritual, as coisas materiais se resolvem."
Gratidão e confiança recíproca de pessoas que passam o ano inteiro correndo, atendendo, resolvendo, socorrendo, produzindo, te aguentando e no fim das contas, ensinando e transformando uma quase quarentona realmente em uma menina (chorona).

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Vaga

Naqueles dias em que tudo dá errado, tenho certeza que Deus está guardando algo pra mim. Nem que seja aquela vaga bem na frente do escritório.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Vontades

Ontem o filho de uma parceira de trabalho, de vinte e poucos anos, me contou que vai morar em Praga por dois meses fazendo um trabalho voluntário em escolas públicas de lá.
Me deu vontade de ir pra Praga.
E de fazer um trabalho voluntário. 
E de ter vinte e poucos anos.
(não necessariamente nesta ordem)
Ou de fazer isso mesmo com trinta e tantos.

domingo, 10 de agosto de 2014

Dia dos pais a distância

Hoje de manhã estava na estrada a caminho de Gramado pra passar o dia dos pais, quando uma caminhonete não parou a tempo e carimbou a traseira do meu carro bem antes do meu destino final. Assim que o susto passou, entrei em São Leopoldo e parei novamente o carro pra respirar um pouco e fazer uma ligação pra um dos únicos números que eu não preciso procurar na agenda do telefone. E não só porque é dia dos pais. Mas porque ele é a primeira pessoa pra quem eu ligaria em qualquer situação. O dono do número que eu anoto no cartão de embarque em caso de emergência. Ou na folhinha do hospital pra ser aquele a quem avisar que está tudo bem depois de um procedimento qualquer. Pra quem eu ligo em caso de doença, ou de dúvida (e há um tempo atrás também de dívida!). Porque ele é simplesmente meu pai, essa palavra que dispensa qualquer maior explicação. Hoje o abraço vai ser virtual no dono da voz que cuida e acalma diariamente tantas crianças. Imagina se não acalmaria, mesmo a distância, o choro de filha.

domingo, 3 de agosto de 2014

Quer que eu capino?

Sempre tive medo de ser assaltada. Não só pelo "conjunto da obra" mas especialmente por medo da minha reação, naturalmente faca na bota. Então hoje saindo do escritório, já escuro, abri a porta e dei de cara com um homem parado na grade aberta, com um saco e um pedaço de pau na mão. Congelada da cabeça aos pés, com o coração na ponta da língua e as pernas viradas em gelatina, ouvi ele me dizer apontando pro canteiro na minha frente:

- Quer que eu capino isso aí pra tu amanhã? 
- Não meu amor, obrigada, isso não é meu!

Ele se afastou enquanto eu seguia na mesma posição mas agora pensando: meu amor? Não tenho mais medo de assalto. Descobri que o fator pânico me deixa paralisada. E muito carinhosa.

sábado, 26 de julho de 2014

(eu sigo acreditando nas pessoas!)

Sempre simpatizei com o Ossip e com o Odessa (talvez me identifique com o mau humor padrão no atendimento), mas desde que abriu o Ossip do Moinhos, acho que os uruguaios deram a maior dentro de todas. Somado ao cardápio e ao ambiente que já eram familiares, os garçons mais educados e simpáticos da cidade estão lá, com seus deliciosos sotaques, atendendo e sorrindo pra todo mundo. Mas hoje meu amor pelo lugar aumentou. Depois de uma sexta a noite tomando vinho por lá, cheguei em casa e percebi que estava sem meu anel, de alguma forma ele tinha escapado da minha mão. Depois de dormir e acordar inconformada com a perda, acabamos passando por lá no fim do dia pra perguntar se não haviam encontrado, confesso que bastante desacreditada. O gerente subiu pra falar com o responsável pelo andar de cima, que desceu de lá sorrindo, com o meu anel na mão. Nesse exato momento ele ganhou o abraço mais apertado do dia, tenho certeza! Sim, eu sigo acreditando nas pessoas, porque pode ser que seja simplesmente o certo que aconteceu, mas infelizmente ainda é o pouco provável.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Resumo

Resumo deste feriado: estava na praia e não tinha biquini, nem canga, muito menos protetor solar. E ainda assim tinha absolutamente tudo que eu realmente precisava. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

TPM x sensibilidade masculina

- Tu não tem mais tempo pra mim...
- Eu não tenho tempo nem de ir no banheiro!
- Tu tá me comparando com ir ao banheiro?
- Não! Banheiro é uma questão fisiológica, muito mais importante!

Sensibilidade masculina 1 X 0.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Espírito Natalino

Fala no celular, enquanto anota na agenda, enquanto saca dinheiro e sai correndo. E o espírito natalino que paira no ar dos shoppings nesta época do ano, faz duas criaturas saírem correndo atrás de mim avisando que da lista de coisas que eu fazia simultaneamente só faltou pegar o dinheiro ejetado pela máquina.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dia dos namorados florido

Atendendo a uma encomenda fui a uma floricultura e em seguida ao supermercado. Na fila, não resisti e comecei a ajustar o bouquet comprado, retirando algumas flores. Ao terminar o pagamento no caixa, olhei para as flores que sobraram e falei:

- Toma, pra enfeitar a tua casa!

A moça do caixa me olhou espantada.

- Sério?
- Claro!

Finalizou meu pagamento balançando a cabeça e perguntou:

- Posso te dar um abraço? Eu nunca tinha ganhado flores!

Free hugs no dia dos namorados. Faz um bem danado.