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segunda-feira, 5 de maio de 2025

Quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?

Ouvi essa frase pela primeira vez há 18 anos.

Tudo começou, quando partiu de mim uma atitude que talvez soe boba, mas foi inusitada, ao menos pro meu modo de ser: deixei um bilhete prum cara que almoçava frequentemente no mesmo lugar que eu. Não sabia nem o nome dele, mas ficava hipnotizada cada vez que o encontrava. Então um dia, depois de almoçar sozinha, deixei um bilhete com meu telefone com a moça do caixa e pedi que ela entregasse. E o inacreditável aconteceu: ele ligou! A história não rendeu grandes frutos pelos mais variados motivos, mas ela tem duas coisas que me marcaram muito.

Uma delas, é que deve ter sido com ele que aprendi que nem todo mundo na nossa vida é caminho, mesmo que a gente queira muito seguir por ele. Tem gente ponte, gente atalho, gente desvio, já cantava o Zeca Baleiro. Mas todos nos levam de algum modo à algum lugar. Naquela época, ele me tirou do fundo de um poço onde eu tinha me enfiado uns quatro anos antes. Segui meu caminho sozinha, mas não teria saído do lugar sem ele.

A outra coisa que me marcou, foi a frase que iniciei o post. Ele me disse ela quando contei que aquela simples atitude do bilhete tinha sido um "marco histórico", que eu jamais tentaria uma investida assim e nunca imaginei que ele me ligaria, nem sabia de onde tinha saído aquela coragem. E foi aí que ele me disse: "quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?"

Essa história e a frase me vieram a mente pois, pela primeira vez, resolvi pegar o carro e ir viajar sozinha para acampar e... voar de balão. Assim que decidi e simultaneamente me senti um tanto louca, aquela frase ecoou em mim.

Foram algumas horas de estrada cantando, pra então vencer o medo e subir na cesta de um balão, onde flutuei no ar em meio a um mar de cores. Saí desse encanto e peguei uma estrada terrível e desconhecida, e horas depois cheguei no meu destino aliviada, mesmo que em um lugar estranho. Armei uma barraca sozinha, e exausta, me orgulhei dos feitos, tudo pela primeira vez. As estrelas no céu eram muitas e pareciam brilhar mais do que o normal. A noite mal dormida e gelada, foi compensada pelo nascer do sol em meio a neblina que pairava e que deixava tudo em uma aura de sonho.

Fui tomada de assombro pela realidade logo em seguida, mas hoje, essa parte chata da história não vai ter espaço. Vou pular dela pra visão gigante dos cânions. Uma imensidão onde tudo, absolutamente tudo, fica pequeno demais.

Vinte quatro horas cheia de primeiras vezes. Pra me ouvir e sentir. Me centrar e acalmar. Respirar. Ver as coisas de longe, comigo mais perto. Perguntar e achar as respostas. Um momento só meu onde nada mudou e ao mesmo tempo nada ficou igual.

Ansiosa pela próxima primeira vez.

domingo, 10 de novembro de 2024

F.G. Bier, 156

Eu morei em 16 lugares diferentes, mas se eu parar e pensar na palavra casa, a da F.G Bier, 156, vai ser a primeira que vai vir na minha cabeça sempre. Ela é especial e aguça absolutamente todos os meus sentidos.

Tem cheiro da comida da mãe, de bolo da vó, de geléia de morango no fogão, do jasmim do pátio, da taipa úmida, de nó de pinho, da gasolina da Agrale, de gelo de flor.

Essa casa tem gosto de panqueca sem recheio, de brigadeiro antes de enrolar, de pão caseiro quentinho, de mate doce com casquinha de laranja, de gemada com banana, de peru assado no Natal e de churrasco no domingo.

Tem o som de grama crocante da geada, dos discos do pai na vitrola, de jogo do Inter na AM, do chinelo da vó batendo no pé, de risadas altas, conversa e gritaria, choros e latidos.

Tem o toque quente da toalha saída da secadora, de lençol térmico tinindo, da manta de crochê, de roseta e raiz de árvore no pé e de grimpa e pinhão na mão.

Ela traz a visão do verde das plantas, das revoadas de morcegos ao entardecer, do dim-dim virando a esquina, da flor que só abre quando vai chover, de céu estrelado, de fogos de artifício do Natal. 

Essa casa é natureza. É camélia, roseira, bougainvillea, pinheiro, copo de leite, lírio amarelo, araucária, azaléia e hortênsia. É pé de araçá e horta de moranguinhos. É sapo, cachorro, aranha, gambá, morcego, tatu bola, minhoca, tico-tico, formiga e bicho cabeludo. E todo mundo que viveu nessa casa, em algum momento virou bicho também.

Essa casa me remete à pessoas que já se foram, desse plano ou da minha vida. Ela me joga na minha infância e eu rolo na grama, brinco no meio da rua, deixo de ser caçula, pego a Kombi, e depois o ônibus; e num piscar de olhos sou adolescente, e pego o carro, e deixo o retrovisor no portão, e choro no quarto; e ela vira minha casa de fim de semana, e depois de férias, até passar a ser a casa dos meus pais, que em outro piscar de olhos viram avós dos meus filhos que correm pela mesma grama que eu rolei.

Essa casa conta histórias boas e histórias ruins e todas fazem parte de mim. Hoje percebo que tudo que aconteceu ali nos últimos 40 anos, remonta quem eu sou. Quem todos nós somos. E que mesmo sem ela, seguiremos sendo.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Arerê

 Já pulei muito Carnaval. Me surpreende pensar nisso hoje, demofóbica que sou. Me dá um nervoso não ter espaço, cada um querer ir para um lado, não conseguir ouvir, ver, passar ou chegar. Mas pulava, ô se pulava. Me divertia, perdia caixas pretas carnavalescas, chegava em casa de manhã. E me surpreende pensar nisso hoje, matutina que sou. Sou amiga do sol, do dia, do entardecer e depois dele gosto mesmo é da minha casa, da minha cama então nem se fala. Mas iam longe as noitadas, ô se iam. E eram noites seguidas, cantando Arerê, um lobby, um hobby, um love com você. Fiquei pensando se a gente muda, se descobre, se aceita, ou de tudo isso um pouco. Hoje me colori pra enfrentar filas, suor e empurrões, mas com dois filhos felizes juntando confete do chão e se divertindo pra valer. Ah! E dormirei cedo, depois de ter até cantado Arerê.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Ilha da Gigóia

Hoje eu fui passear na Ilha da Gigóia, lugar que eu nunca tinha ouvido falar até vir morar no Rio em 2010. Ela é uma ilha pequenininha, desenhada por inúmeras ruelas estreitas cheias de placas coloridas, grafites e plantas de todos os tipos. Num dia lindo de sol como hoje, fica tomada de pessoas que parecem conhecer cada um que passa. Ela é meio bagunçada, muitas das construções não deixam bem claro se foi finalizada ou não. Tem um boteco em cada canto e armazéns que vendem de tudo, muita birosca misturada com lugares charmosos que algum estrangeiro resolveu abrir. É uma cidade do interior dentro de uma cidade grande, com uma praia logo ali, apaixonante, cheia de cuscos e de vida. Pensei cá comigo: isso é muito a minha cara, ou pelo menos era a cara daquela Kelen lá de 2010... Como é que ela saiu daqui? A verdade é que eu nunca cheguei a entrar! Quando vim morar aqui, depois de pular de casa em casa e muito procurar (ah, Airbnb...), achei um anúncio de uma pousada que aceitava hóspedes por longas temporadas nessa tal ilha que ficava na Barra. E era tudo que eu precisava: um apezinho mobiliado, sem nada pra comprar e por um preço pagável e relativamente perto do trabalho. Peguei meu primeiro barco pra ir conhecer a pousada e pedi somente pra atravessar a lagoa. Ao descer, sem andar muito, perguntei pela pousada Barravento e me disseram: ah, não chega por aqui não, tem que pegar outro barco e pedir pra descer lá. Não entendi, mas aceitei e virei as costas pra ilha sem sequer conhecer. O novo barqueiro me deixou na pousada e foi então que o proprietário me explicou que dali eu não teria acesso a ilha exceto por barco. Uma construção logo atrás dela, fazia com que não houvesse outra saída exceto pela água. Nos meses que se seguiram, sempre peguei meu barquinho direto pro continente, fosse pra trabalhar ou passear. Quis o destino que eu não me apaixonasse por esse lugar e mudasse a minha história. Será? Só posso acreditar que ele, o tal destino, me queria mesmo era em Porto Alegre, pra fazer da minha vida o que ela é hoje. Quantas vezes uma simples decisão pode mudar todo nosso rumo?


"Si nunca paras de buscar, talvez nunca pueda ser encontrado por lo que buscas."

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Sessão Nostalgia

Semana corrida, não deu tempo de ir no super. Abro a despensa e pego os dois únicos ingredientes disponíveis e aptos a gerar uma refeição. Ao olhar o prato servido de massa com atum, automaticamente volto no tempo e vou até Torres, lá por 1990. Foi tão boa a lembrança que não vou trabalhar hoje de tarde. Vou fazer um negrinho, comer de colher, colocar a fita do Australian pra tocar, dar uma dormidinha e assim que acordar vou pegar meu morey e ir surfar.
(acorda Kelen, não tem leite condensado em casa)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Meu passado me condena

Quando eu tinha meus vinte e bem poucos anos e estava na faculdade, ainda não conhecia a frase "O que acontece em LA fica em LA". Se conhecesse, teria criado a homônima "O que acontece em um Elea fica no Elea"*.

Anos se passaram após todas aquelas coisas que fazemos durante a faculdade das quais não somos, digamos assim, exatamente orgulhosas, mas que fazem parte da vida e das caixas pretas que ficaram pelo caminho.
As pessoas tomam todas, se divertem fazendo berequetê, se formam, viram profissionais, abrem suas empresas e os caminhos voltam a se cruzar. Um belo dia conheci uma empresa que executava obras. Muitos encontros em obras, emails e telefonemas depois, jamais fiz qualquer associação de quem era a pessoa que me atendia. Os anos passam, os cabelos ficam brancos, a cara de guri ou guria amadurece. Até o contato virar amigo no Facebook. E tu te deparar com uma foto dele no pior (ou seria melhor, nunca saberei) Elea da tua vida em Salvador. Fiquei vermelha sozinha em casa na frente do computador! Ainda que ele fosse apenas mais um dos participantes das loucuras daquela viagem, curti uma ressaca moral de cantinho. E olha que nem participei de berequetê nesse encontro! O tempo passa, volto a fazer contato com ele pra uma nova obra e comento (até pra ele não me achar a louca que se apresentou na primeira reunião):

- Quando a gente se conheceu naquela obra eu não sabia que tu era tu e que a gente se conhecia da faculdade!
- Ah! Sem problemas. Mas eu sabia quem tu era!

Abre um buraco no chão, quero ficar lá dentro pra sempre.

*Encontros Latinoamericanos de Estudantes de Arquitetura. Válido também para Ereas (regionais) e Eneas (nacionais)!

terça-feira, 28 de julho de 2015

In2you

Sozinha em casa, de saída, coloco um perfume qualquer.
De repente me assusto com a minha própria voz:

- Nossa, que cheiro de passado!

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Roteiro

A gente se gostava, mas não era o casal perfeito. Ele me convidou pra morar junto e eu não resisti, topei. Vendi tudo. Quase tudo. E fui. Durou nove meses. Peguei meu quase tudo, bati a porta e comecei do zero. Sozinha a cabeça girou, quis ir pra longe.  Me desfiz de tudo. De quase tudo. Deixei o quase guardado e atravessei o mar. Respirei Barcelona por três meses. Mas o destino aprontou comigo e me fez voltar. Deixei meu quase tudo onde estava. Me conformei com as tramas dos meus pensamentos por três meses. Bati a porta, peguei um avião. Vivi de Rio de Janeiro por quatro meses. Morei numa ilha, trabalhei na TV. Mas me queria de volta. Voltei. Peguei meu quase tudo. E comecei do zero. Tirei a vida do modo errante e voltei a viver. Não me arrependo de nada. De quase nada.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Perfect Day

Era alguma noite de maio, de 1992. Tento me lembrar se tinha mesmo autorização para sair do Colégio ou se falsifiquei a assinatura da minha mãe para poder me juntar a todos os alunos da Fundação que iriam ao Show do Roxette em Porto Alegre. Não importava; eu era fã incondicional e iria àquele show de qualquer jeito. Não tinha pôsters grudados na porta do meu armário do Internato, como as minhas amigas tinham do Axel Rose ou do Bono Vox, mas sabia cada uma das letras de cor. Suspirava ouvindo Dangerous e enlouquecia quando ia na casa das amigas de Novo Hamburgo assistir aos clipes na MTV, já que a TV a cabo ainda não havia chegado até Gramado.
Diversão absoluta no ônibus a caminho do show que não parou nem mesmo frente às filas imensas que nos aguardavam no Gigantinho. O grupo que desceu as pressas se dissipou rapidamente e com pouco mais de dez pessoas acompanhei as primeiras músicas lá do fundo da pista. Deve ter sido impulsionada pelo "Yeah, yeah, yeah" de Drexed for success que eu e mais dois amigos percorremos toda distância que nos separava até a grade mais próxima da banda, parando apenas pra tocar nas bolas gigantes que voaram para a platéia durante Joyride em perfeita sincronia com a música. "In a wonderful balloon". E em épocas mais simples, sem camarotes nem pistas premium, em poucas músicas estávamos colados no palco.
E foi de lá que o mundo de uma guriazinha de 15 anos parou ao ouvir os primeiros acordes de Perfect Day tocados no acordeon.
.:.
Quando soube do show em Porto Alegre não movi uma palha pra comprar ingressos. Não cogitei a hipótese de entrar no túnel do tempo. Não me imaginei gritando "Hello, you fool, I love you" outra vez. Mas na verdade só faltava eu ser impulsionada por alguma coisa. Então minha irmã resolveu querer ir e eu topei, assim, sem muita resistência. E aí estou aqui ouvindo "Spending my time". E pior, cantando. Talvez eu só não quisesse voltar a me sentir aquela guriazinha de 15 anos que se emociona (e ainda espera) o tal do Perfect Day.


sábado, 16 de outubro de 2010

Síndrome do eterno retorno

Estava sentada sozinha na mesa de um bar esperando uma amiga, quando vi ele se aproximar. Um pouco pela minha miopia, um pouco por ele estar com um corte de cabelo tão diferente, não o reconheci imediatamente. Até ele parar do meu lado com um sorriso gigante e dizer:

- Eu posso saber quem é que está te fazendo esperar desse jeito?

O meu sorriso se transformou em um sorriso tão grande quanto o dele. Aqueles lindos olhos azuis tinham ido parar em um lugar sem acesso da minha memória. Por algum motivo que eu naquele momento não entendia muito bem, não lembrava de ter lembrado da existência dele em nenhum momento da minha vida nos últimos quase dois anos. Conversamos sobre os outros, sobre Chico Buarque, sobre Nietzsche, sobre Whisky, sobre o Rio, evitamos o futebol e falamos sobre a vida:

- E tu, firme com a namorada?
- Sim, firme!
- Que bom!
- E tu?
- Eu sigo firme também, do outro lado! Sempre enfiando os pés pelas mãos.
- Kelen, Kelen. Essa é a Síndrome do Eterno Retorno. É tudo um grande ciclo e quando vemos estamos sempre repetindo os mesmos erros, as mesmas coisas, e ...

E de repente eu lembrei. Como se tivesse sido ontem, eu lembrei. Do quanto eu tinha sido interessante. E do quanto eu havia me transformado em uma pessoa desinteressante sem saber porque. Mas eu sabia sim. Sabia há dois anos, e hoje, repetindo os mesmos erros, sei ainda melhor. E foi por isso que ele foi jogado em um lugar sem acesso da minha memória: porque ele escolheu assim.


- Bem melhor quando são os acertos que se repetem, né?


Nos despedimos ainda sorrindo com um abraço apertado e um sinceríssimo "bom te ver"A história que transbordou na minha cabeça depois do encontro, abriu meus olhos míopes de uma maneira assustadora. Então decidi manter a parte ruim da história naquele mesmo lugar sem acesso da minha memória. Mas trouxe para uma área bem acessível a parte boa, a que eu quero que seja sempre um eterno retorno. Aquela parte que simplesmente dizia "me haces bien".

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Passou

Amanhã começa um novo dia, num novo bairro, numa nova rua, numa nova casa. Posso acrescentar numa nova vida? Acrescentado. E o que é passado, passou.

sábado, 13 de março de 2010

Eternamente criança


Quando eu era criança ficava preocupada com qualquer inseto que entrasse no carro, porque eles iam pra muito longe da casa deles e iam acabar se perdendo da família e dos amigos. Tinha também a mania de salvar as minhocas que eu encontrava se debatendo na calçada quente.
Quando eu era criança, arrancava a casquinha de toda e qualquer ferida muito antes dela cicatrizar. E chorava, por qualquer coisa, não só quando caía e me machucava.
Quando eu era criança gastava toda minha mesada bem antes do fim do mês. E não entendia porque a casa da moeda simplesmente não imprimia mais notas e distribuia pras pessoas pobres e pra mim também.
Quando eu era pequena em dia de chuva, ficava na janela vendo a rua lá de baixo encher e tinha muito medo que o mundo acabasse submerso. Nessa época eu morria de medo de injeção, de morcego e da morte.
Quando eu era criança eu sempre deixava a melhor parte da comida pro fim, mesmo que isso significasse comer a massa de panqueca sem o recheio. E nunca sabia escolher uma sobremesa só, tinha sempre que pegar um pedacinho de cada doce disponível pra só então decidir qual era o melhor.
Quando eu era criança mirava em algum lugar pra acertar um alvo nunca sem antes pensar: se eu acertar é porque ele gosta de mim, ou algo parecido com isso. E eu acreditava que um dia ia conhecer o meu príncipe encantado que me faria feliz para sempre.
Quando eu era criança esperava ansiosamente pelo dia do meu aniversário. O que eu não poderia imaginar é que chegaria aos 33 anos e continuaria igualzinha, fazendo todas essas coisas.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Beijo, me liga

Tive um namorado que me assustava. Pra ele nunca teve "não sei, talvez, quem sabe, vamos ver". Era sim ou não. A cada separação, um dia depois da briga, eu já não tinha mais um apelido carinhoso, voltava a ser a Kelen, assim, no seco.
"...mas quem sabe...". Não.
"...e se a gente...". Não.
Claro que se tiveram idas e vindas foi porque algumas vezes ele cedeu. Por que? Simples. Porque nessas horas o "não" tinha virado "sim". Enquanto fosse "não sei, talvez, quem sabe, vamos ver" seria sempre "não". Sempre achei aquilo de uma frieza sem fim.
.:.
É aí a vida vai me mostrando que os homens em geral não sabem dizer não. Eles preferem atacar com muitos desses "não sei, talvez, quem sabe, vamos ver". Pra bom entendedor meia palavra basta ou "não tenho coragem, logo enrolo"? Qualquer que seja a opção, hoje prefiro o não. Pena? Não sintam. Um não é melhor que muita coisa nessa vida, pena é uma delas. Não tem certeza? Perdão, nesse caso ainda prefiro o não. Prefere sumir? Agora eu que digo: por favor, sejam homens: apareçam e digam não!
.:.
Hoje admiro a atitude daquele namorado. Podia até ter frieza, mas tinha também uma baita qualidade em falta no mercado: coragem.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O apego

Uma compradora com olhinhos brilhantes passeia pelo meu apartamento olhando com o maior interesse tudo ao redor. De repente para, põe os olhos em um quadro na parede e pergunta: "Bah, gostei muito destas portas, quanto é este?". Devem ter passado uns três segundos e um sorriso para eu responder, "Ah, este não está a venda".
Nesses três segundos, eu desci pela costa espanhola em direção a Tarifa hipnotizada pelas centenas de cataventos que via pelos campos, emoldurados pelo pôr do sol; andei por toda cidade em busca de um quarto para dormir por uma noite, e acabei em um quarto compartilhado com outras duas pessoas que sequer cheguei a ouvir a voz; tudo isso para no outro dia cedinho pegar o ferry boat que atravessaria o estreito de Gibraltar em direção a Tanger, no Marrocos. E nestes mesmos três segundos, cheguei a sentir o vento gelado dessa travessia no meu rosto, assim como toda a mistura de cheiros, cores e sons do mercado. Senti novamente um arrepio na espinha ao lembrar do passeio pela Medina com o guia Abdul por aquelas ruas de pedra, estreitas e sem nenhum movimento, das portas coloridas que davam acesso as Mesquitas e fiquei aliviada por depois de tantas curvas e becos finalmente chegar em uma ruazinha comercial, onde uma nova onda de cores me encantou. E não teria como ir embora daquele lugar sem levar alguma coisa que nunca me deixasse esquecer daquele momento. E então escolhi um camelo de couro costurado a mão e três postais com a imagem de portas coloridas.
Não foi só o quadro na parede que me fez sorrir, mas sim tudo de bom que ele me lembrou. E o lugar dele (e dessa história) vai ser sempre junto de mim. Definitivamente, nem tudo tem seu preço.

sábado, 8 de setembro de 2007

É impossível ser feliz sozinho...

Já diria Tom Jobim.

Mas confesso que com um sushi, muito saquê e um filme bem água com açúcar, eu já tô quase esquecendo que tá calor, que eu fiquei em POA trabalhando e que meu namorado está na praia.
Eu disse quase.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Morar junto é...


Acordar juntos...
Jantar juntos...
Dormir juntos...
Ver TV juntos...

- E FICA QUIETA QUE EU QUERO VER O JOGO.
- QUER SABER? EU VOU EMBORA DAQUI!
(embora pra onde mesmo, minha filha???)

Morar junto também é ter que fazer as pazes bem mais rápido do que se gostaria.

terça-feira, 20 de março de 2007

Sensibilidade masculina

Conversávamos romanticamente ontem à noite, quando ele comenta:

- O bom aqui de casa é que quando a gente brigar eu posso ir dormir lá na rede, né?


(pausa para pensar)

- Quer dizer, eu não, tu pode ir dormir lá na rede.

(pausa para pensar um pouco melhor)

- Quer dizer, se a gente brigar eu te mando é pra tua casa!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Patagônia 2x0 Kelen

Nunca gostei de perder, inclusive sou péssima perdedora. Em cada competição que participava no colégio (e que fique registrado que me inscrevia em todas as modalidades disponíveis) onde ficava com o segundo ou terceiro lugar (e que aqui fique registrado que tirava no máximo essa colocação em todas as modalidades disponíveis) ia cabisbaixa, me arrastando até a frente da sala de aula ou do ginásio buscar minha medalha.
Jogos à parte, no dia a dia sou igual. Detesto perder qualquer coisa. Um projeto, uma concorrência, uma aposta, uma pessoa. Mesmo que seja temporariamente. Há semanas eu lutava contra a ira que brotava em mim cada vez que lembrava que meu namorado passaria 20 dias longe na Patagônia, justo nas minhas férias. Egoísmo puro da minha parte, que não poderia de qualquer jeito ir junto com ele e que nem sabia que teria férias. Mas essa justificativa que acabei de dar não diminuiu em nada a minha ira.
Nos dois últimos dias, eu e a Patagônia disputamos a grande final.
A noite, nada fazia ele largar os preparativos. Peguei no sono enquanto ele ainda conferia se tudo estava mesmo na mochila, arrumada dois dias antes. 1x0 Patagônia.
De manhã, quando pensei que tudo estaria pronto e eu teria uns 15 minutos de atenção, os preparativos continuavam a mil e quando eles terminaram, quem teve atenção foi o porteiro eletrônico que anunciava a chegada do táxi. 2x0 Patagônia.
Voltei pra cama cabisbaixa, me arrastando, atrás da minha medalhinha de prata: meu travesseiro. Antes de deitar, dei uma última espiada pela janela. E lá estava ele, esperando na porta do táxi, olhando pra cima, se despedindo de mim.

Perdi de 2x1, mas ganhei meu prêmio de consolação.