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terça-feira, 27 de outubro de 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tudo ao mesmo tempo agora

Não pude fazer nada. Um turbilhão de palavras veio vindo sem avisar.
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No mesmo dia em que cancelaram meu curso, eu tinha uma entrevista de emprego marcada (numa padaria, não se iludam). Brinquei que o padeiro decidiria minha vida. Se ele me quisesse eu ficava, se não, eu voltaria. Mas à noite, depois da entrevista e antes da resposta do padeiro, no exato momento em que o Coldplay cantava "Viva la Vida" eu soube que em breve estaria em casa.
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Sabe quando os médicos dizem aquela frase: nós fizemos tudo que estava ao nosso alcance? Pois é. Eu fiz tudo que estava ao meu alcance. Milagres eu ainda não aprendi a fazer.
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A partir deste dia Barcelona se transformou pra mim. Eu passei a ser uma pessoa de férias que curtia aquela cidade incrível da maneira que ela merecia ser curtida. Eu andava pela rua sorrindo, eu fui pro Parque Guell e me joguei nos bancos de Gaudi, eu bebi champanhe no meio da rua e comprei um óculos falsificado de um senegalês, eu pedalei de uma ponta a outra da cidade, eu me estiquei na praia em plena segunda-feira. Eu vivi e senti pela primeira vez Barcelona.
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As pessoas definitivamente perderam a noção. Não tenho outra explicação. Who let the dogs out?
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Definida minha volta, defini também que precisava aproveitar a Europa antes de voltar. Enlouquecidamente comecei a acessar todos os sites de passagens low cost, fazendo um roteiro que começava na Itália e terminava em Amsterdam, naquela velha corrida pra qual eu tinha me inscrito há meses. Seis países, trinta dias, uma mochila, alguns euros e deu. Tava de bom tamanho.
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A história que as tais das melancias se acomodam com o andar da carroça é a mais pura realidade. Mas tem que deixar bem claro que existem perdas significativas de algumas melancias nessa acomodação!
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Ah, a Itália. Entrei nos meus cartões postais preferidos. Mesmo tendo no meu vocabulário no máximo umas dez palavras em italiano adorava fazer mil perguntas em qualquer língua (pois de qualquer jeito eles iam me responder em italiano mesmo) só pra escutar eles parlando e pra ver aquela gesticulação exagerada tão familiar. E depois da explicação onde conseguia captar meia dúzia de a destra ou a sinistra, seguia a diante dizendo grazie e sorrindo pra todos os lados (deve ter sido o fato de estar lendo "Budapeste" nesta parte da viagem o que me fez ficar tão encantada com esse negócio da língua de cada lugar). Encontrei uma amiga querida em Milão; caminhei sob sol e sob chuva por toda Cinque Terre (e perdi todas as minhas fotos); ignorei quem me disse que Pisa só tinha a torre e não valia a parada e fui a Pisa só pra ver a torre; arrumei uma guia chilena em Luca; acabei em Roma só porque não consegui lugar pra dormir em Siena; fui duas vezes ao Vaticano pra conseguir entrar na capela Sistina e achei tão sem graça que achei que não tinha entrado no lugar certo; vi o entardecer mais lindo da viagem em Florença; voltei a Siena pra subir e descer por todas aquelas ruas de dia e sem mochila nas costas; dormi num trem a caminho de Veneza; me arrepiei assim que pus os pés naquele lugar; me apaixonei por Burano; chorei na Piazza San Marco com uma Italianada tocando um "New Yok, New York" que mais parecia uma tarantela; peguei o trem errado e acabei em Padova tendo uma conversinha com Santo Antônio; fechei a Itália com chave de ouro em Verona, cidade que entrou no roteiro por acaso mas que valeu cada minuto do dia passado lá. Ainda que os italianos realmente sejam uns grossos (e justifiquem o sangue que corre aqui dentro) meu coração hoje é mais feliz por ter finalmente pisado naquela terrinha.
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Sabe quando acontece uma coisa ruim que lá no fundo é uma coisa boa? Pena que a gente demora um pouco pra se dar conta disso.
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O que me levou a Verona foi a passagem de 15 euros que partia de lá em direção a Londres. E quer saber? Londres também não era meu sonho de consumo. Era só aquela cidade fria e cinzenta onde anoitece cedo mas que mais dia ou menos dia eu teria que conhecer. E Londres tinha tudo pra se dar mal comigo já que eu chegaria lá depois da Itália, esse sim meu sonho de consumo. Grande engano o meu. Talvez tenha sido minha baixa expectativa que tenha feito eu me apaixonar. Ou o céu cor de rosa com que ela me recebeu. Pode também ter sido culpa dos maravilhosos museus e galerias (com entrada gratuita) que visitei. Ou será que foram aqueles parques verdes e imensos lotados de esquilos?  Não, acho que foi aquela gente toda correndo e pedalando e passeando com seus cachorros por eles. Mas será que eu já tinha me apaixonado antes de enlouquecer em Camden Town? Acho que já, mais ou menos naquela hora em que entrei em uma única hora em mais de 20 lojas sensacionais de livros e de design em Covent Garden depois de ter sido apresentada a culinária Taiwanesa no So-ho. Não sei. Mas selei meu amor por Londres fotografando a London Eye e o Big Ben por todos os ângulos; ficando embasbacada com a educação daquela gente; me deslumbrando com a sinalização da cidade que beira a perfeição; tomando os sucos ou vitaminas de todos os sabores oferecidos a cada esquina, lado a lado com kits de sushis prontíssimos pra serem devorados ali mesmo ou no parque mais próximo; desbravando a cidade caminhando sem parar, evitando até mesmo o maravilhoso tube só pra poder ver e sentir mais aquele lugar. Foram mais de 12 horas de caminhada por dia naquela cidade pra qual ainda não achei as palavras certas. Ela pulsa. Ela emana energia. Ela vibra. Ela me ganhou. Nem o hostel imundo instalado ao lado de um cemitério, onde dormi na primeira noite me fez mudar de ideia. Nem eu quase ter de virar de cabeça pra baixo pra conseguir me localizar nos mapas das paradas de ônibus (e ainda assim acabar parando na parada errada) me fez mudar de ideia. Nem eu ter que repetir a palavra Greenwich em todas as pronúncias que consegui inventar mais de três vezes pra cada pessoa pra quem pedi informação (tendo escutado What? em todas essas vezes) me fez mudar de idéia. Li num livro uma frase que talvez defina o que senti por Londres: "Quando um homem está cansado de Londres , é porque está cansado da vida; pois em Londres temos tudo que a vida pode oferecer."
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Pra mim uma das maiores lições de uma viagem feita sozinha foi aprender a não me culpar tanto por tudo que acontece na minha vida. Numa viagem assim, tudo que der certo é mérito teu, logo, tudo que der errado obrigatoriamente vai ser culpa tua também. Não tem quem culpar, não tem quem xingar, não tem em quem descarregar. É assumir e entender que ... shits happen all the time.
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Cheguei em Paris aos frangalhos. Londres sugou cada uma das forças que existia neste corpo. Cheguei na casa do amigo que me hospedaria numa gelada noite de sexta-feira, abri a janela da sacada, olhei a Torre Eiffel iluminada e me dei por satisfeita; tudo que eu queria era me deitar por horas. No outro dia, uma manhã de sábado não menos gelada, fiz um tour de scooter por toda a cidade e me senti dentro de um filme a cada monumento, museu ou igreja que passava. Mas faltavam forças pra encarar aquela cidadezona. Foi aí que o Eduardo me olhou e disse: Take it easy. Era verdade; eu tava de férias, eu precisava relaxar. Durante os três dias que se seguiram passei boa parte das manhãs em casa, vendo a chuva cair lá fora sem pressa pra nada. Repensei a vida, repensei a viagem. Cometi o ato (visto como insano por alguns) de cancelar minha ida a Grécia e voltar mais cedo pra Barcelona. Como explicar isso? Que  eu estava enjoada de mim? Cansada da mochila, das roupas, do mesmo all star, de trocar de hotel, de falar sozinha? Então decidi não explicar. Até porque ia ser mais difícil ainda complementar dizendo que o simples fato de comprar a passagem Paris / Barcelona, me gerou uma felicidade tão grande que aí sim acabei criando forças pra me entregar à cidade de Amelie. Não me apaixonei, confesso. Talvez pelo cheiro de xixi em todos os metrôs. Talvez por ter sido quase atropelada numa faixa de segurança com o sinal fechado. Talvez por estar cansada demais. Talvez por Londres ter conquistado meu coração dias antes. Ou talvez pelo simples fato de estar na cidade do amor sem o tal do amor.
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Comecei a ler o livro Devagar na viagem. E chegava a ser engraçado. Lia sobre ser mais devagar à noite e no outro dia estava correndo ensandecidamente por alguma cidade pra não perder um trem. Lia sobre Slow Food no trem e logo depois almoçava sem parar de caminhar nem pra dar uma mordida. A velocidade é boa mas tem seu preço. Comecei a dar mais valor pra esse livro justamente em Paris, no último dia, quando decidi fazer tudo que não tinha feito até então, caminhando sem parar e indo a todos os lugares que faltavam e também aos que sequer estavam no roteiro. Cheguei em casa exausta, com o corpo dolorido, a cabeça explodindo e o estômago ardendo. Eu estava na cidade luz mas terminei meu dia num quartinho escuro, de olhos fechados, esperando todas aquelas dores saírem de mim. Take it easy, Kelen, já esqueceu?
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O surpreendente foi chegar em Barcelona, lugar que eu ficaria uma semana descansando antes de passar meu último final de semana entre Bruxelas e Amsterdam e realmente me sentir em casa com aquela cidade ensolarada sorrindo pra mim. Mas aquela sensação fez com que me desse conta que eu queria mais que aquilo. Que eu realmente queria ir pra casa. Que nem uma criança que tá na casa da amiguinha brincando e se divertindo e de repente sem mais nem menos joga a Barbie longe porque cansou de brincar. Será que é possível cansar de brincar? É sim. E dois dias depois, eu embarcava no vôo que me traria a Porto Alegre.
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E quase duas semanas depois de chegar, finalmente me sinto em casa, com direito a pequenas doses de tudo de bom que minha vida em Porto Alegre sempre me apresentou. Eu precisava era disso: uma overdose dessas coisas todas! Fora de contexto o c******, tô bem aqui ó, bem no meu lugar. Se aconteceram também coisas ruins nos últimos dias? Ah, Kelen. Take it easy. Shits happen all the time. Ainda não aprendeu?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Organizando as ideias

Ficar um mês inteiro sem escrever e pouco falando com todo mundo, fez com que a minha cabeça começasse a transbordar de coisas, todas loucas pra fugir pro teclado, pra tela, pros ouvidos, pra todos os cantos. Chegou uma hora que, antes que eu explodisse e saísse falando na rua com estranhos (até porque sozinha eu já estava falando), peguei um papelzinho e comecei a escrever tópicos. E dos tópicos puxava setas. E nas setas colocava itens. E em alguns itens colocava asteriscos. E destes asteriscos surgiam comentários de rodapé, ou "roda forro", dependendo do espaço disponível no papelzinho. E quando eu vi o papelzinho ficou que nem as ideias na minha cabeça: uma verdadeira superlotação querendo sair dali pra algum lugar.
Quero escrever tanta coisa que ainda não descobri por onde nem como começar. Até porque com apenas cinco dias em Porto Alegre, já tenho outro papelzinho imaginário na cabeça, cheio de tópicos, setas e asteriscos sobre o simples (às vezes nem tão simples assim) fato de estar de volta.
Aos poucos as idéias vão saindo, com um pouquinho de passado e um pouquinho de presente. Agora, se eu começar a falar de futuro, pelo amor de Deus, mandem me prender. Minha ideia de planejamento daqui pra frente alcança no máximo os próximos dois dias. E olhe lá!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

As férias das férias

De volta a Barcelona. Antes do planejado. Diferente do planejado.
Melhor do que o planejado? Talvez, não tenho a resposta.
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Inclusive taí nesse papo de planejar, o meu maior aprendizado depois dos últimos meses: não planejar tanto. Esperar as coisas acontecerem, clarearem, se acomodarem, pra depois tomar alguma decisão. Não ser tão ansiosa, afobada, precipitada. Num piscar de olhos o planejamento de um um dia muda, basta perder um trem. O planejamento de uma semana muda, basta chover. O planejamento de meio ano muda, basta cancelarem um curso. Teria feito tudo, absolutamente tudo diferente se soubesse das mudanças que viriam pelo caminho. Mas a gente não sabe de nada, por mais que planeje o futuro, ele sempre vai nos surpreender.
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É muito chato e repetitivo dizer que aprendi muito com a viagem? Bom, não tenho escolha, vou ter que ser chata e repetitiva e dizer que aprendi. Aprendi a esperar. Esperar a hora certa, esperar as pessoas, esperar antes de agir, esperar baixar a poeira, simplesmente esperar.
Aprendi a conhecer. Conhecer os lugares do meu jeito, conhecer a Kelen, conhecer melhor as pessoas que apareceram ou reapareceram no meu caminho, conhecer as pessoas que ficaram pra trás.
Aprendi a reconhecer. Reconhecer as minhas qualidades e os meus defeitos, reconhecer os meus limites, reconhecer o quanto as pessoas que me receberam aqui foram essenciais e especiais, reconhecer nas pessoas que ficaram pra trás aquelas que são as melhores e mais importantes pessoas e aquelas que são... simplesmente pessoas. Agora, são só as primeiras que quero pela frente na minha vida.
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O que mais ouvi nos últimos tempos, como se as pessoas tivessem ensaiado uma resposta pra me consolar, foi que algo maior deveria estar reservado pra mim pras coisas terem sido do jeito que foram. Depois de mover montanhas pra realizar um sonho e ver ele se transformar aos poucos em um sonho tão diferente do previsto, realmente, algo de muito grande deve estar por vir. Ou não. Ou simplesmente precisava sair pra aprender esse montão de coisas ali de cima e ser uma pessoa melhor. Não diferente, nem outra, simplesmente melhor.
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Em breve estarei também de volta a Porto Alegre. Antes do planejado. Diferente do planejado. Melhor do que o planejado? Não sei. Uma hora a resposta vai chegar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Por motivos de força maior

Quando eu era pequena e faltava aula, no outro dia levava uma folha de papel onde dizia: "A aluna Kelen Tomazelli faltou a aula ontem por motivos de força maior". Não entendia exatamente o que aquela tal de força maior queria dizer, mas sabia que era o suficiente pra justificar a falta pros professores.
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Mas chega uma hora que o poder deste significado fica bem claro. Nesses últimos dias, por motivos de força maior, minha vida deu uma reviravolta absurda, repentina e inesperada e que vou me abster de descrever. Primeiro fiquei frustrada, depois triste, depois irritada, depois sem rumo, depois elétrica, depois aliviada e por fim feliz.
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E é desta maneira, aliviada e feliz que vou tirar férias por uns 30 ou 40 dias. Férias de mim, férias de vocês, férias da vida virtual e creio que férias também da vida real, já que 30 ou 40 dias de férias tá muito mais pra sonho do que pra realidade. E depois? Bueno, o depois fica pra depois.

"Não me pergunte, não tenho resposta
Não me procure, não peça que volte..."


Pelo menos não agora!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A garota do Facebook

Atenção amigos leitores usuários do Facebook: paguei o mico de tirar uma foto num evento aqui em Barcelona, pelo gostinho de poder ganhar 300 euros em compras. Cliquem aqui, se tornem fãs do Roca Village (mesmo sem saber do que se trata) e deixem algum lindo comentário na foto. Vejam bem, cliquem na foto, não adianta comentar no meu perfil que os jurados não vêem!
Sugestões:

"Mira que guapa."
"La chica mas linda."
"La mejor foto!"

Ou seja, vale mentir.
O meu guarda-roupa agradece!


Parem o mundo já










PORQUE EU QUERO DESCER AGORA.
Só hoje eu gostaria de solicitar
a vida na versão sem emoção.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Me despindo de preconceitos - parte dois

Tenho feito muitas coisas em Barcelona pra deixar a ansiedade de lado. Nunca fui tão agitada e hiperativa na vida. Corro, caminho, pedalo, trabalho, leio, escrevo e mesmo assim o corpo não cansa nunca. Consigo fazer tudo isso e ainda assim chegar no fim do dia cair na cama e não conseguir dormir; o corpo está cansado mas a agitação continua a mil dentro da cabeça.
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Logo que cheguei aqui, a Tati me disse que era budista e que às terças-feiras um grupo se reunia para praticar. Com as férias, as reuniões não aconteceram, mas muitas vezes, quase todos os dias, presenciei a Tati concentradíssima na frente de uma espécie de altar (devo estar falando besteira mas ela não está aqui pra me corrigir) entonando um sutra, como ela me explicou depois. A frase repetida incansavelmente diz NAM MIOHÔ RENGUE KIÔ e eu não vou tentar explicar aqui aquilo que eu mesma estou tentando entender, cliquem e tirem suas próprias conclusões. Mas uma das explicacões bastante convincente que ela me deu é que ela se baseia naquela velha lei de Lavoisier (que pra mim virou a lei do Jorge Drexler): nada se cria nem se perde, tudo se transforma. Observei essa prática por um mês, até ontem.
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Sou de uma família católica não praticante, com exceção da minha falecida avó paterna que ia à missa todo santo dia e que conseguiu até mesmo fazer meu pai quase ateu ser coroinha por um tempo. Mesmo não praticante, respeito e acredito em muitas coisas ligadas a religiosidade, não todas. Há anos ando com meu escapulário, agora substituído pelo pequeno terço que ganhei de presente para a viagem e acredito na proteção deles; faço o sinal da cruz na frente de qualquer igreja; rezo sem regra de hora, dia ou lugar para pedir e para agradecer; não sou devota a nenhum santo, mas tenho sérias conversas com Santo Antônio e com São Expedito. Mas não estou fechada para coisas que surjam e que possam acrescentar alguma coisa boa na minha vida.
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Então em meio a devaneios sobre dúvidas, angústias e decepções desta vida, a Tati mais uma vez me convidou pra uma dessas reuniões. Expliquei pra ela da minha dificuldade, que eu não consigo sequer resistir a uma aula inteira de yoga, que quando chega na parte final de ficar deitada pensando em nada, visualizando bolhas coloridas ao redor de mim ou sentindo vibrações até mesmo no couro cabeludo, minha cabeça já está pensando na lista do supermercado e o corpo louco pra levantar dali. Mas mesmo assim resolvi tentar e decidi que mal não poderia me fazer, afinal eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas não, vou estar praticando budismo.
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E a reunião conseguiu o impossível: fiquei por uma hora parada, sentadinha, concentrada naquele sutra e esvaziando a minha cabeça. Li em japonês orações escritas originalmente com hideogramas chineses. Repeti o sutra até a boca ficar seca. Além disso, durante a invocação, temos que pensar e concentrar muito naquilo que mais desejamos. Limpei a mente de todas as besteiras que pensei em pedir e me concentrei realmente naquilo que mais desejo. Quando terminou, não parecia que tinha passado uma hora.
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No final as pessoas conversaram um pouco e todos se disseram impressionados por ser a minha primeira vez, por eu ter aguentado uma hora e por estar tão concentrada. Mal sabem eles o quanto eu quero aquilo que eu quero... me falaram da força e do poder da prática diária e que eu não deixasse de acreditar e me esforçasse para seguir a diante. Falaram o quanto vai me ajudar a me sentir mais tranquila, mais leve, menos ansiosa. Seria uma significativa e positiva transformação desta pessoa aqui e além do mais, não tenho absolutamente nada a perder. Já acreditei em coisas bem mais improváveis nessa vida.
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Não sei se volto budista ou se é só uma experiência; na verdade se parar pra pensar, não sei de absolutamente coisa nenhuma. Porque tudo e todos são tão inconstantes e surpreendentes que não tem como conseguir saber o que vai acontecer amanhã... mas fiquem vocês aí imaginando: eu, assim, bem zenzinha da silva, hein?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Me despindo de preconceitos

E da parte de cima do biquini também.

(se vocês tivessem visto a turma da terceira idade que estava totalmente peladona - e feliz da vida - na praia que fui hoje, vocês entenderiam como eu consegui me livrar da minha imensa vergonha...).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vivemos de paixão, e alguma grana

Sexta-feira, cinco da tarde, eu e Gabi, beira da praia, claras na mão, altos papos cabeça em meio ao banho de sol:

- Não sei Kelen, às vezes me dá a sensação que a gente tá aqui e só gasta, gasta e gasta.
- Não é uma sensação Gabi, é a pura realidade. Hoje por exemplo...
- Não fala! Vamos beber...
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E depois de um mês (e uma única mala), gostaria de declarar que não aguento mais as minhas roupas!
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Tudo começou com a foto do Jorge Drexler (no show de ontem que eu não fui) todo estilo casual-coisa-mais-querida. Tati comenta:

- Tinha um cara bem tipo ele, nesse estilinho aí, lá no aeroporto na Bélgica. Comentei sobre ele e a minha amiga disse "tu gosta mesmo é de um latino!". Pior que é verdade.
- Eu também prefiro. Esse negócio de inglês, norueguês, escocês, tô fora.
- Eu já fiquei com um inglês, mas ele era um tipo muito bem, loiro, pele morena, e tal.
- Ah claro, uma coisa assim tipo David Beckham acho aceitável!
(momento pensativo)
- Eu nunca fiquei com ninguém de outro país...
(momento pensativo mais longo)
- Eu nunca fiquei com ninguém de outro estado! Só gaúcho!

Nem eu sabia que tinha esse "espírito-gaúcho-separatista" tão arraigado! Mas esse uruguaio... ah, esse eu pegava!


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Viva la vida

Mais duas cidades espanholas na minha lista: Tarragona e Valência. A primeira, conheci com os amigos e fomos de carro à praia, às ruinas romanas e ao centro histórico. A segunda, conheci sozinha ao estilo Kelen: a pé de um extremo ao outro da cidade sem parar nem para comer. Mentira. Tomei uma horchata maravilhosa num lugarzinho natureba tudo de bom. Não fiquei pra Tomatina no dia seguinte. Além dos tomates passados da festa, achei que eu também já estava passada pra encarar a guerra, ainda mais com essa tal de demofobia. A próxima cidade vai ser Girona. Mas não atrás do Jorge Drexler naquele show de ingressos esgotados, desisti. Lamento por ele que vai ficar mais um tempo sem me conhecer...
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Fui no super comprar quiboa e voltei com amoníaco. Coisas de quem sabe tudo em espanhol.
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"Memórias de minhas putas tristes" foi rapidamente terminado na viagem de volta a Barcelona, e substituído pela peça Besame Mucho, escrita pelo Mário Prata. O próximo livro vai ser em espanhol, prometo (pra mim mesma).
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Uma amiga que adorou a expressão "perder a caixa preta", coisa na qual sou pós graduada (e se a expressão não foi criada por mim, deveria ter sido), ensinou ela para os amigos espanhóis que prontamente adotaram a nova versão: perder la caja negra.
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E sigo andando a pé por esta cidade sem parar. As pernas cada vez mais duras agradecem. Vou voltar pro Brasil pobre, mas bem gostosa.
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A parte ruim destas andanças é que esta cidade se move por metrô e todo e qualquer encontro marcado se baseia pela linha tal, estação tal. Pois esta pessoa que vos fala ainda não possui sequer um mapa do metrô e foi saber a poucos dias quais as linhas estão aqui perto de mim. Pelo menos as saídas do metrôs conheço quase todas, pois é lá que me encontro com as pessoas ainda que chegue nelas a pé.
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E uma amiga vai embora antes do tempo e me deixa a missão de vender o ingresso dela para o show do Coldplay, esgotados há meses. E encerra dizendo: "Tenta vender na hora que tu vende pelo dobro que eu paguei. Mas se não conseguir, vai tu". Y viva la vida...
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Enquanto isso, a cabeça não para de bolar planos e mais planos...

"La vida no para, no espera, no avisa, tantos planes, tantos planes..."
(dele, claro)

domingo, 23 de agosto de 2009

Um pouco de tudo, de tudo um pouco

Delicioso almoço em casa na sexta-feira. Eu e Tati, que normalmente nos revezamos na cozinha (ela três dias, eu um...) não nos falamos de manhã e quando vimos tínhamos dois almoços a vista. O resultado foi um menu completo muito do chique. De entrada mariscos com limão e sal; de primeiro salada de camarões com abacate e broto de alface e de segundo espaguete em tinta de lula com tomates, manjericão fresco e queijo Grana Padano. A sobremesa pra fechar o menu? Mariolas Da Colônia, importadíssimas do Brasil.
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O livro do Tim Maia, o qual terminei as lágrimas, foi substituído pelas Memórias de minhas putas tristes do Gabriel Garcia Marquez. E este baita colombiano será também lido em bom português. Era o que tinha!
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Aqui os supermercados fecham as nove, literalmente. É nessa hora que eles apagam as luzes, esteja tu saindo pela porta ou escolhendo uma alface.
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As festas de Grácia são famosíssimas e super movimentadas. Os moradores decoram suas ruas e participam de um concurso que elege a melhor de todas as decorações. Junto disso tudo, seja no meio da rua ou no meio de uma praça, shows dos mais variados acontecem. Estive lá três vezes. A primeira no domingo passado, em uma infindável sessão fotográfica dos cenários caseiros criados por ali. A segunda vez, na terça, sem destino certo e em meio a uma multidão e um calor infernal, resistindo menos de uma hora assistindo parte de um show de música típica. A terceira e última vez, foi no encerramento, onde o número de pessoas da terça foi multiplicado por cinco e que foi quando eu comprovei que eu tenho total claustrofobia a multidões* (o que na verdade deve ser uma fobia com outro nome) principalmente quando elas são suadas e pegajosas. Agradeço a mim mesma por nunca ter levado a sério a ideia de ir passar um Carnaval na Bahia atrás do trio elétrico.
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Sábado a tarde acabei numa cidadezinha perto de Barcelona, no aniversário de 3 aninhos da filha de uma amiga da Tati. Uma guriazinha linda metade catalã metade baiana, em uma festa que tinha tortilla de batata e brigadeiro, onde tocou de bossa nova a esta sonzeira aqui. E viva as diferenças. E as misturas também.
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Domingo maravilhoso de muita praia, muito sol e de gramadenses reunidos. O dia e a companhia foram tão bons, que decidi prolongar essa coisa boa toda e me agregar a caravana rumo a costa Espanhola, pelo menos até um pedaço: Valência é o meu destino.

* segundo o Sr. Google, demofobia.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Gastronomia e afins

Lendo o Post da Jojo, que veio lá de longe pra se apaixonar (no sentido mais amplo da palavra) em terras Portoalegrenses, lembrei que ainda neste fim de semana na mesa de um restaurante, comendo uma paella dos deuses, o assunto virou Porto Alegre, ou na verdade, a comida de Porto Alegre, já que tudo começou com a paella do Tablado Andaluz. Sou aí do lado, já que Gramado não está a mais do que 120 e poucos km de distância, mas também me apaixonei e adotei a capital pra mim. Segundo a minha irmã, até Portoalegrês eu passei a falar. E nesses dias de distância desta província, fiquei numa melancolia saudosista divagando sobre as maravilhas gastronômicas da cidade, desde o sanduíche aberto do Ratão e a pizza da casa do Ossip, até o tortéi de moranga com castanhas e o pudim de iogurte do Ocidente complementados pelo Montblanc do Café da Oca, passando pela carne se desmanchando de tão macia da Costela no Rolete e pelo carrinho de saladas do Barranco (e o sanduíche da Primavera, o banquete do Al Nur, o bauru do Trianon, a comida natureba do Machry, o cachorrinho da Princesa...).
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Por aqui, não estou por dentro de muitas dicas gastronômicas, já que como muito mais em casa do que na rua. Fora duas paellas realmente muito boas, e o famoso pão com tomate que é entrada em todos os lugares, não tenho grandes experiências à mesa. A maior festa é mesmo ir ao mercado ou mesmo ao supermercado. No mercado, tudo é colorido, tudo parece bom e até a peixaria com aquele cheiro horrível me deixa com água na boca. Mais ainda devido aos preços dos peixes por aqui. Tenho me contido para não comprar um filé de salmão enorme por medo de não me aguentar e acabar devorando ele inteiro, só que cru. Esse colorido todo (somado a uma colega de AP totalmente natureba) nunca me fez tão saudável e saladas e frutas tomam conta da geladeira. Já no supermercado, virei leitora assídua de rótulos e mais rótulos, passo sorrindo pelos queijos com aqueles preços ridículos de tão baratos e fico louca com a diversidade de cereais, sucos e iogurtes. Por sinal, a minha última aquisição, foram quatro potinhos de um mousse de iogurte, da Danone mesmo, que pra minha felicidade, é igualzinho ao pudim de iogurte do Ocidente.
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Já no quesito bebidas, essa cidade me estragou. Além da sangria já velha conhecida, fui apresentada ao Tinto de Verano, com receitas variadas mas basicamente feito de vinho tinto, refrigerante de lima, vermut e rodelas de lima (por sinal aprendi: aqui limão é lima e lima é limón!). Além dele, a melhor (ou pior) das invenções: a Clara, ou Clarita, onde metade do copo é de cerveja e a outra metade de refrigerante de lima (ou limão...). Bem coisa de mulherzinha e que desce redondinho; difícil mesmo é encarar uma cerveja purinha depois. E aí? Já pensou voltar pra Porto Alegre, sentar na mesa do Ossip e explicar que eu quero uma Polar e uma Sprite pra misturar?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Vinte dias de Barcelona

Deveria ter escolhido um livro em espanhol na pilha de livros da Tati, mas acabei pegando emprestado e estou nos últimos capítulos do livro Vale Tudo, que conta a história do Tim Maia. Além da vida dele que já é um prato cheio, o livro repassa o caminho que a música brasileira percorreu nas últimas cinco décadas. Tem sido minha melhor companhia na praia, na terraza e na cama. Preciso de um substituto urgente.
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Emprestada também, foi a bici que peguei dela no domingo para ir a praia e depois para andar por duas horas pelas ruas da cidade, longe do centro. Paraíso de ciclovia e de sinalização perfeita. Claro que por mais de uma vez, escutei a sinetinha de alguém atrás de mim querendo passar, já que eu estava plantada no meio do caminho tirando alguma foto.
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Depois de vinte dias, ao contrário do que disse depois dos dez primeiros, acho que as coisas mudaram outra vez de velocidade. A preocupação de que vai faltar tempo pra tudo o que eu quero fazer começou a surgir. É a viagem para Figueres e Cadaqués, outra para Ibiza, a semana na Itália, e tem o norte da Espanha, e os lugares de Barcelona que eu ainda não fui, e aí começa meu curso e de repente quando eu vejo já foi. Ô ansiedade que consome essa criatura.
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E já que o tempo realmente voa, foi essa velocidade que me fez desistir de entender certas coisas e pessoas que já não entendia mesmo estando em Porto Alegre. Não vai ser aqui, com um oceano de distância, que vou passar a entender. O negócio é desligar de vez esses "botões" e ver se eles ainda vão estar funcionando quando eu pisar no Brasil.
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Meu pai ficou conectado no domingo esperando eu chegar em casa pra saber como estavam as coisas. Perguntou das dores de cabeça, das alergias, da comida, do trabalho, dos preços, de tudo um pouco. Depois de um tempo conversando disse que a mãe estava ali do lado mandando um beijo e que ia ver se ela queria perguntar alguma coisa. Fiquei preparada, esperando as típicas perguntas: se eu estava comendo bem, se eu já tinha trocado os lençóis e as toalhas, como eu estava lavando a roupa ou se eu estava usando protetor. Que nada; em vez disso só veio de lá: "diz pra ela não escrever tudo no blog!".
Pode deixar mãe, só vou escrever o que eu achar muito legal e importante!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Cheia dos hola que tal

Eu decidi vir pra Barcelona quase dois meses antes do meu curso começar, por motivos que hoje já nem fazem mais sentido, mas de qualquer forma, acho que está valendo a pena. Claro que além desse tal motivo sem sentido, minha cabecinha fez seus cálculos e pensou que seria muito mais divertido ganhar em Euros por dois meses do que em reais. Doce ilusão dessa pobre arquiteta... a crise e as férias fazem com que mais de duzentos currículos enviados depois, me aparecesse... nada. Ou melhor, quase nada.
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Me chamaram em uma empresa de RH e me convidaram pra vender... luz. Tentando ser sucinta (coisa que eu definitivamente não sei ser), os espanhóis tem um prazo pra escolher dentre 19 empresas pra comercializar a luz gerada por outra empresa e eu era contratada de uma dessas tantas. O trabalho? Simples: cheia dos "hola que tal", entrar em todos os estabelecimentos comerciais existentes, oferecendo a minha empresa. Nada de fixo, mas valendo €25 por contrato fechado, meta de quatro por dia, resultando tipo €2000 por mês. Simples né? Seria. Se tu não tivesse que falar somente com o titular da conta de luz, se 70% das pessoas não estivessem de férias, 10% já não tivessem escolhido outra empresa e 10% não tivessem carga suficiente pra entrar no teu esquema. Os outros 10%? Querem mais é que tu vá pro infierno, "porque solamente robam a nosotros, porque este govierno de mierda y porque la puta madre" e daí pra baixo. Durei um dia e disse "hasta la vista".
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Em seguida, decidi encarar mais uma entrevista, dessa vez para o cargo de promoter nas Ramblas. A vontade de gargalhar na entrevista é enorme. Quando a mocinha avisou que não tinha ganho fixo, que eu tinha que oferecer "tapas y chupitos" e que ganharia €1 por pessoa que fosse até lá, me controlei pra não soltar uma gaitada. Mas veja bem: não basta ir até lá, tapas y chupitos y tal y cosa y cosa y tal e ir embora, tem que consumir, senão, nada de euros. Pra completar, eu era apenas a promoter de número 27 (ah claro, o flyer, com teu número tem que ser entregue, se ele já foi pro lixo e a pessoa foi até lá, não adianta dizer que recebeu daquela chica, muy rica y tal y cosa y cosa y tal, não nada de euros). Mas enchi o peito e encarei, cheia dos "hola que tal". E olha, putaqueospariu, êta gente bem grossa. Jurei, e tenho cumprido com êxito, nunca mais evitar flyers na rua ou pelo menos sorrir e dizer um educadíssimo "gracias". Fiz algumas anotações mentais sobre as diferentes reações das pessoas. Casais de idade são os mais educados (e para esses eu falava em Happy Hour, chupitos nem pensar). Os jovens querem é saber de night e de olhar pra tua bunda. Italianos são os mais simpáticos. Franceses, pegando ou não o flyer, são sempre educados, mas adoram dizer que não te entendem. Ingleses e semelhantes te dizem um "no, thank you" que tu chega a ficar com medo. E orientais fogem de ti assustados como se tu fosse o Satan Goss. Setenta folders depois, vi um único e educadíssimo casal de franceses entrando no lugar. Durei um dia e disse "hasta la vista". E nem peguei meu euro.
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Ontem de manhã recebi um SMS dizendo que meu currículo tinha sido selecionado e me pedindo pra entrar em contato. Não dizia selecionado por quem, nem pra que, mas a otária ligou. Uma vozinha em espanhol disse muy rápido que "el custo de esta chamada bla bla bla no se que más". Quando o carinha do outro lado começou a falar, deletei o "bla bla bla" da cabeça e dei atenção pra ele que parecia interessadíssimo no meu excelente currículo, mas tinha que repassar ele todo por telefone e completar alguns dados. E não, não queria fazer entrevista para agilizar o processo e não, não tinha como eu mandar meu currículo completo por e-mail. Uns dez minutos depois (e espero do fundo do coração que não tenha sido muito mais que dez minutos depois), "muchas gracias, com certeza será muito rápido ter retorno com um currículo desses, adios". Fiquei feliz da vida até me cair a ficha, horas depois, que era golpe. Esses hijos de una puta madre, ganham dinheiro com a tua ligação, são de RH un carajo. Otária. Muito otária. Quando essa conta de telefone chegar... com certeza eu vou lembrar do que dizia o tal do "bla bla bla".
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E pra encerrar essa longa história, hoje de manhã já sem saco nenhum pra nada relacionada a trabalho, recebi um e-mail de alguém que havia recebido meu currículo convidando pra trabalhar em um congresso de cardiologia. Currículo com foto, ó, pelo menos me acharam bonitinha, já é um começo. Liguei pra pedir mais informações e juro que pela primeira vez tive dificuldades de comunicação em espanhol. A pessoa do outro lado por mais de uma vez disse que não conseguia me entender. Falei de novo, bien despacito, e por fim ela chegou a conclusão que eu não servia pro negócio por não ter a tal da porcaria do número de identidade de estrangeiro. No meio da conversa, a cretina me larga "porque yo tambien soy brasileña y bla bla bla". Ah, mas que vaca. Justo uma brasileira não estava me entendendo no telefone? Vá chupar um prego, ou una clava, como preferir.
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E enquanto digitava este post entrou uma mensagem em inglês no meu celular da Lidyana (who?), que estará recrutando amanhã a tarde para o cargo de promoter do Barcelona Party Night. Olha vou dizer uma coisa. Se eu deixar de ir pra praia pra ir neste troço e esta vaca me vier com emprego sem ganho fixo, juro, cago ela a pau . E depois vou pra praia, bem feliz. Porque antes de sair do Brasil, o discurso é "topo qualquer coisa, desde que não afete minha integridade física". Chegando aqui, tu acrescenta nessa frase a tua integridade moral.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vamos nos permitir

De repente me dei conta que nos dias de semana, cumpro horários em Barcelona. Com raras exceções, quando vejo meu dia foi acordar, ficar no computador até a hora do almoço, voltar pra cá e ficar até o fim do horário comercial brasileiro. O que só pode denotar algum grave distúrbio mental, já que ninguém tá nem um pouco preocupado se eu estou aqui ou se eu estou passeando pela cidade. Tenho que mandar currículos? Tenho, já mandei duzentos, ou mais. Tenho algum trabalho pra fazer? Tenho, e na medida do possível tenho feito todo ele. A angústia de estar ociosa, e claro, de não ter a conta bancária dos meus sonhos nem costas quentes, faz com que eu não me permita simplesmente curtir. Claro que jamais conseguiria ser uma porra louca que gasta o que não tem em agosto pra ver qual é lá em setembro. E estar aqui, pra alguém que não sabe o que é guardar dez pila por mês, já é lucro. Mas nada disso justifica o massacre psicológico que eu mesma tenho me imposto. Ontem no fim da tarde, tinha um compromisso (se é que entregar folders nas Ramblas pode se chamar de compromisso) as sete e meia e eram cinco, quando eu olhei pra essa tela cheia de vectors, corels, currículos, e-mails, orkuts, facebooks e blogs abertos e tive um troço. Não joguei longe o laptop porque não é meu (e porque precisaria usar ele mais tarde por bem ou por mal). Mas fechei tudo, mandei mentalmente a merda e fui pra terraza tomar banho de sol. De topless, pra me sentir ainda mais livre. E esse é o mínimo que eu posso fazer por mim.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Carajo

Num minuto descubro a notícia que me alegra o dia: Show do Jorge Drexler, aqui do lado, em Girona! Mas demoram só mais alguns minutos pra eu murchar: ingressos esgotados. Será que tem cambista na Espanha?


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pra morrer de saudades

Recebi hoje de manhã um e-mail da minha irmã que lê meu blog pros meus afilhados. Ela estava com eles vendo o jogo do Inter e por algum motivo começaram a falar em viajar depois dos trinta. Começa o Marco, o mais velho:

- Depois dos trinta é aquele negócio da dinda, né? O que que é depois dos trinta???

Explica a minha irmã que eu dei esse nome porque tinha acabado de fazer 30 anos quando fiz o blog. E ele continua:


- Quando é o aniver da Dinda?
- Dia 13 de março.
- E a gente não deu presente?
- Sim, deu dinheiro pra ela comprar alguma coisa na Espanha!

Aí o João, o mais novo, interefere:

- E a dinda comprou aqueles sapatinhos engraçados pra passear no parque de diversões!!!

Eles são o melhor presente que a minha irmã já me deu nessa vida. Mesmo que eu não seja uma frequentadora super assídua de Gramado, mesmo que eles achem os meus irmãos muito mais divertidos do que eu, que vivo dando ordens, mesmo que eles façam cara feia quando eu aperto e beijo eles. Sou completamente apaixonada por essas duas figurinhas.