Há dois anos quando meus pais venderam a casa onde moraram por cerca de 40 anos, fizemos um churrasco no pátio de despedida. Durante este dia, meus irmãos e afilhados jogavam sacos cheios de quinquilharias guardadas no sótão, que eu revirava com gosto e sempre catava alguma coisa pra trazer pra minha casa. Uma boneca Bem-me-quer sem roupa, um patins que ainda não serve em ninguém, a caixa de iogurte daquele restaurante macrobiótico delicioso, meus trabalhando do Jardim de Infância. A casa não poderia ir embora sem eu levar um pedaço dela, ou ao menos da história que a gente viveu ali. Escolhi também algumas plantas, dentre elas uma Dama da Noite que ficava na varanda do quarto que havia sido primeiro da minha avó, e alguns anos mais tarde o meu. Minha mãe me explicou que a flor durava um noite apenas e desde então fiquei na expectativa de quando ela viria. O que descobri em seguida é que ela realmente dura uma noite só, mas são várias delas ao longo do ano. E a cada botão que surge, eu fico atenta ao processo para poder observar e registrar. Esta semana, uma dupla apontou ao mesmo tempo. Passei a observar todos os dias até que quinta percebi que elas iriam desabrochar e resolvi registrar. É como um lindo orgasmo da natureza, sabe? Elas se excitam, enrijecem, abrem, exalam o melhor perfume, explodem e murcham. E eu acompanho cada um deles feliz por ter trazido esse pedacinho de casa pra cá.
Eu tenho essa coisa de apego. A lugares, a coisas, a pessoas. Por isso minha casa é esse grande relicário. De histórias, de viagens e até de pessoas. São minhas relíquias sagradas que fazem eu voltar no tempo por minutos só de olhar. Tenho aprendido (ou tentado aprender) a me apegar menos a tudo, o que é muito difícil, pra quem tem tanto amor pra dar. Tenho aprendido que nem todos ciclos se fecham da forma esperada, as vezes se rompem, seja uma casa vendida ou uma história mal acabada. Talvez a Dama da Noite venha me ensinando que nem mesmo os ciclos que se fecham terminam bem, mas isso não tira a beleza do que houve nele.sexta-feira, 3 de abril de 2026
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Novembro
Novembro se foi
E eu também
Mas fui até ali e voltei
Corri, parei e já recomecei
Gargalhei e chorei
Revivi e vi que superei
Senti, resisti, segurei
Desembaracei jibóias e operei
Andei de balanço e dancei
Brinquei e também briguei
Comemorei e por fim descansei
Coube quase um ano em novembro
Que respeitou melhor o tempo
Mas agora é o ano se indo
E dele já nem sei.
2025 teve seus versos
Mas não foi exatamente poético
Vai que com uma rima
dezembro entra no clima.
sábado, 27 de setembro de 2025
Sábados
Primavera me faz bem. Acordar num sábado de sol me deixa feliz. Parei numa sinaleira e me distrai cantando. Eu adoro essa música. Ouvi uma buzina e voltei a mim. Ele gesticulou com as mãos. Eu me desculpei. Paramos na próxima sinaleira. Ele voltou a gesticular. Eu mandei um beijo. Ele fez aquele gesto de "tu precisa de um pau bem grande". Eu fiz um coração com as mãos. Ele fez aquele gesto "tu precisa trepar". Eu não acreditei que um velho do lado de uma mulher idoda estava estava fazendo aquilo. Ele passou do meu lado e parou na próxima sinaleira. Eu fotografei o carro dele. Ele se assustou e assim que pode saiu da minha frente. Sem dar seta. Que teus desejos se realizem, meu senhor, eu ainda posso, já o seu querido não deve subir há tempos, talvez por isso tanta amargura.
domingo, 24 de agosto de 2025
Embasamento científico
Tenho uma teoria em relação à saúde, baseada em um total de zero dados científicos, que é a seguinte: quanto mais doente me sinto, mais doente eu fico. Acordei já cansada, dor no corpo, moleza, certo que é uma gripe chegando, fiquei na cama? É garantia de ladeira a baixo. Levantei de arrasto, mas lavei o rosto, coloquei uma música, tomei café e saí de casa? Em seguida nem lembro que acordei destruída. Pensei nisso hoje porque passei a semana assim. Todos os dias eu poderia [poderia, rá! poderia se eu pudesse poder!] ter ficado em posição fetal até gastar a cama de tão exausta e mal dormida e mole e bah... Não podendo [nem querendo] ficar mal, tirei forças do dedão do pé e levantei todos os dias, e lavei o rosto, e coloquei uma música, e tomei café, e saí de casa, e fiz a semana acontecer como se nada estivesse acontecendo. Domingo não foi diferente. E foi olhando o pôr do sol absurdamente lindo e inesperado de hoje, que me dei conta que digo isso em relação a estar doente, mas poderia pensar assim em relação a muito mais: quem sabe testar um quanto mais feliz me sinto, mais feliz eu fico? Não tem nenhum embasamento científico, mas também nada que diga que não possa funcionar.
sábado, 16 de agosto de 2025
Vestido verde
Há exatamente um ano escrevi um texto sobre separação.
Abro grandes parenteses pra dizer que escrever foi a forma que encontrei há tempos de tirar emoções de dentro de mim. Perdi o poder da fala pra essas emoções. Se envolver sentimento, eu abro a boca pra falar e choro, seja esse sentimento amor, alegria, tristeza ou raiva. Se envolver intensidade, transbordo. Não que isso deixe de acontecer escrevendo, mas nas palavras escritas, em distância segura das causas, tenho como esconder, disfarçar, reler, repensar. Mantenho um pouco do controle que me angustia tanto perder ao falar.
Fecho parenteses. Dias depois de ser escrito, aquele texto pensado somente pros meus filhos, se transformou em uma ideia de livro. Chamei a Julia pra ilustrar e quando ela me trouxe o primeiro esboço (vendo o qual me lavei chorando), pedi que ela trocasse a minha roupa. "Coloca um vestido verde, longo, solto, acho que desse jeito eu vou ser mais eu".
O boneco do livro aconteceu. A editoração do livro aconteceu. O financiamento coletivo aconteceu. O lançamento aconteceu. A ideia de livro, virou um livro de verdade. E meu hiperfoco de meses, ali parido, chegou a me jogar num imenso vazio ao atingir o objetivo de existir e de se espalhar por aí.
Hoje, vesti o vestido verde que, sem nem pensar especificamente nele, descrevi pra Julia lá atrás, e fui ler a minha história pra quem estivesse na praça. Gaguejei, me emocionei, me atrapalhei. Tive a participação dos meus dois protagonistas, do livro e da vida, inúmeras vezes, oportunamente ou não. Lembrei porque tanto escrevo ao invés de falar, mas terminei o dia orgulhosa por ter aceitado o desafio de encarar e (tentar) controlar as minhas emoções.
quinta-feira, 12 de junho de 2025
Fã
Dia desses conversava com uma amiga em função de algum storie que havia postado e ela encerrou nossa troca falando “sou tua fã”. Fiquei pensando naquilo e me perguntando, por que diabos minha fã? Acredito que passo a impressão de ser uma mulher forte. E não acho que isso seja totalmente ruim, nem totalmente mentira. Mas tenho muitas questões em relação a essa “ditadura da mulher maravilha” e tudo que a gente “tem que” e “pode ser”.
Eu sou forte, mas eu sou frágil.
Eu sou foda, mas eu fraquejo.
Eu abraço o mundo, mas preciso de colo.
Eu sou independente, mas dependo de muita coisa.
Eu tenho minhas conquistas, cercadas de frustrações.
Não é porque eu dou conta, que eu não preciso de ajuda.
Eu tenho atitude, mas morro de medo a cada decisão tomada.
Passo a imagem de uma guerreira, que quer ser um pouco princesa.
E posso até correr com lobos, mas tenho medo deles também.
Talvez minha amiga seja fã de uma mulher que no fundo ainda é uma garotinha.
E apesar de ser dia dos namorados, isso não é [exclusivamente] sobre relações românticas, é [simplesmente] sobre relações.
domingo, 12 de janeiro de 2025
Veraneio
Veraneio - ação de veranear, de passar as férias num lugar agradável, diferente do habitual, geralmente perto do mar.
Passei pela minha adolescência com uma frustração: eu não veraneava em Atlântida. Meu pai, médico, tirava 15 dias de férias e íamos para Florianópolis [quem vê pensa, que tragédia!]. Naquela época, a magia e lindeza da ilha não pesavam nessa cabecinha, eu queria apenas fazer parte das férias dos meus colegas de colégio, e não chegar em março sem ter passado três meses "sozinha" e sem estar presente nas histórias de verão de todos eles.
Anos se passaram até eu finalmente viver finais de semana e feriados mágicos nas mais diferentes praias de Santa Catarina dando o devido valor. Mas aí, quando me apaixonei por isso, o litoral gaúcho passou a ser preterido.
Demorei mais uns tantos outros anos pra lembrar porque queria tanto estar aqui nos anos 90 e assim curtir de verdade estar no nosso litoral. Pra poder reclamar do Nordestão e das mães d'água. Pra encontrar um conhecido a cada passo. Pra saber a numeração das casinhas dos salva vidas. Pra lembrar que um mar verdinho ajuda, mas que o que faz de verdade um lugar, é quem está contigo nele.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
Balanço
Eu não sei se todo mundo passa por isso, mas eu às vezes transformo coisas simples do cotidiano, que renderiam no máximo uma postagem bonitinha no Instagram, em uma verdadeira jornada de auto conhecimento da minha vida.
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Decidi fazer uma trilha até um balanço que tinha lá no parque onde passamos o final de semana. Longe, caminho pedregulhoso, íngreme, um mini desafio. Sem Internet, logo, sem música, os únicos sons que ouvia era dos bichos, do vento e dos meus pensamentos, o que já dava uma barulheira e tanto. Aquele balanço que parecia não chegar nunca, era um objetivo mas também uma fuga. Consegui ver simbologia em todo trajeto. Nas pedras, nos tropeços, no tombo, no atalho que me levou a um riacho intransponível, até mesmo na libélula que passou sorrateiramente voando ao meu lado e me lembrou do significado de transformação e capacidade de adaptação que ela carrega. Cheguei lá em cima ofegante e li: respire. Obedeci. Pensava eu que o balanço seria apenas divertido, mas ele também se mostrou um tanto assustador e inseguro. Ainda assim, não conseguia mais sair de lá. Não fossem pessoas me esperando e horários a respeitar, talvez tivesse ficado por lá a manhã toda, me embalando e ouvindo. Mesmo contra vontade parei, desci. Ao lado, vi uma daquelas pilhas de pedras equilibradas onde somei mais uma, nada mais simbólico do que conseguir esse equilíbrio. Voltei menos barulhenta, eu acho. Lembrei de quando aprendi que grande parte do barulho que a gente faz, muitas vezes somente nós mesmos estamos ouvindo. Depois da caminhada de volta, já lá embaixo, olhei pra trás e pensei: olha onde eu cheguei! E segui.
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Talvez seja tudo uma grande maluquice. Talvez eu vire coach. Ou talvez eu apenas siga postando no Instagram porque achei bonitinho e guarde em mim o tanto de história que vejo por trás das coisas que eu vejo e vivo por aí.
segunda-feira, 13 de março de 2023
Crise de ansiedade
Fui agraciada, nas vésperas dos meus quarenta e seis anos, com uma crise de ansiedade. Não é a primeira vez que ela me visita. Da última vez, inclusive, estava certa de que iria morrer de falta de ar. Foi pós-covid, me deem um desconto. Meu irmão, sempre muito prático, me explicou: tu estás com sensação de falta de ar e não falta de ar de verdade (o que bem se via pela minha oxigenação em 100% após corrida até o hospital). Alguns anos antes, meu pai dava um outro nome para as minhas crises: suspirite aguda. Errado ele não estava, já que os sentimentos sempre estiveram à flor da pele nessa pele aqui. Desta vez, quando a crise chegou, sabendo eu que era uma sensação que meu próprio corpo provocava (porém não controlava), passei a me provocar e questionar: o que está me deixando assim? Não pode ser só culpa daquele projeto insano, quantos destes eu já fiz? Já sei, escola nova, filho no primeiro ano, angústias e medos aflorando. Mas será? Eles têm chegado tão felizes em casa. Boletos (incrivelmente) pagos, saúde (sempre sendo checada) em dia e em meio a esses pensamentos, segui enlouquecidamente acordando cedo com crianças na cama, passeando com cachorras, fazendo lanches, checando mochilas, correndo até a academia mesmo com tempo contado, organizando a casa e a vida, zerando notificações de todo e qualquer aplicativo, preenchendo tabelas e planilhas, fazendo mil reuniões, achando espaço para todos os eventos e atividades possíveis, caindo cedo e exausta na cama até que... chegou a me faltar o ar. Seria ânsia de não estar vivendo tão intensamente e daquela forma interessante que almejei há um ano atrás? Ou estaria eu vivendo intensamente até demais para não deixar de ter aquela tal vida interessante almejada? Lembrei da amiga psicóloga que naquela mesma crise pós-covid me disse que eu não estava com falta de ar, mas sim com excesso. Na ânsia por não ter, acabamos por ter demais. Será que vale só para o ar? Os quarenta e seis chegaram, está voltando o ar. Que não me falte tempo para respirar (e nem motivos para suspirar).
sexta-feira, 12 de junho de 2020
Tu sabe?
quarta-feira, 22 de abril de 2020
É pavê?
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Sutileza
sábado, 5 de janeiro de 2019
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Carnaval
domingo, 10 de dezembro de 2017
A cor
De dentro do carro fiquei acompanhando a cena. Os carros mal arranharam mas os dois queriam achar o culpado pra pagar pelo estrago. A filha da senhora apareceu, todas as vizinhas da senhora foram pra janela, um vizinho desceu. Alegavam que tinham visto tudo e que ele não tinha dado espaço pra ela sair, que ele não podia ter feito retorno, que ele era culpado. Ele começou a ficar nervoso, ia perder tudo que ganhou no dia no conserto. Nem sei se ele tava certo, confesso, mas fiquei com pena de ver aquela situação "todos contra um" e parti em defesa. A cada nova alegação dos outros eu rebatia. Até que cansei, pedi pra encerrar minha corrida e chamei outro carro, mas deixei meu telefone caso ele precisasse de ajuda. Mais tarde ele me ligou. Pediu desculpas pela corrida, que poderia vir na minha casa devolver o dinheiro, que sabia que tinha se alterado. Mas acima de tudo queria agradecer por eu ter sido a primeira pessoa que havia defendido ele, que é negro, na vida. Em nenhum momento isso me chamou atenção. Será que do outro lado também não?
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
BO
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Sobre a lógica das coisas
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Se essa rua fosse minha
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Sem raça definida
Agora a pouco passeava em frente a Tok Stok quando um labrador sem coleira e sem guia (e com um temperamento um tanto atípico para a raça) que estava ao lado da sua dona que abria uma garagem, atravessou a rua correndo e latindo em direção a elas. Enroscada em guias, sem chances de conseguir colocar duas cachorras no colo e aos gritos e latidos de cachorros e manobristas do estacionamento, tentava eu segurar o tal labrador, que de simpático e amigável não tinha nada, enquanto a dona buscava uma coleira atravessava a rua e chegava dizendo "Tu quer brincar mas elas são brabas, não querem brincar contigo", e atravessou a rua sem em nenhum momento cogitar se desculpar.
Ri Sozinha, quase com vontade de chorar. Elas podem ser brabas, loucas, histéricas, mas andam na rua de guia, como manda meu bom senso. É incrível como algumas pessoas são irresponsáveis e egoístas e não sabem conviver em sociedade, seja com pessoas ou com animais. É incrível como essas mesmas pessoas olham com ar de desprezo pra duas vira-latas como se ter cachorros de raça fizesse deles pessoas melhores. Que pena eu tenho desses cachorros. Não por serem de raça, mas por serem dessas pessoas.

