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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Feliz Natal

Natal é a data do ano que mais nos ensina a dividir, desde que somos pequenos. E falo em dividirmos bem mais que presentes, panetones ou que as disputadas coxas do peru. Dividimos um tanto os nossos corações.

Quando eu era criança, dividíamos as nossas noites entre o Natal na nossa casa com parte da família da minha mãe e o Natal na casa da minha avó paterna e sua enorme família. Em determinado momento deixamos de dividir nossa noite, mas meu pai continuou se dividindo.

Ao longo dos anos da minha adolescência e em seguida na vida adulta, quando estava namorando, nos dividíamos por eu ser de outra cidade, e cada um passava o Natal com a sua família, ou às vezes, alguém abria mão de estar com a sua, dividia o coração e passava com a família do seu par.

Quando casei, virou regra nos dividirmos por ano, e a cada Natal passávamos com uma das famílias. Essas divisões nunca foram fáceis, queremos sempre estar com os nossos familiares, costumes ou tumultos Natalinos. Mas pelo outro, dividíamos.

Provavelmente quando estávamos nos acostumando a isso, veio a separação, e agora, são meus filhos que começam a aprender a se dividir. A ceia do dia 24 em Gramado com a família da mamãe, o almoço do dia 25 em Porto Alegre com a família do papai. Uma véspera feliz pra mim e difícil pro pai, e no dia seguinte, o inverso. Essa divisão dói, afinal é Natal, queremos estar com os nossos, né?

Mas espero continuar conseguindo fazer isso carregando o espírito de Natal dentro de mim: mesmo que com essa pitada de dor e tristeza, também com amor e leveza.

sábado, 18 de outubro de 2025

Quem escolhe deixa

 Há uns 30 anos, tive um professor que me ensinou: quem escolhe, deixa. E taí uma coisa que não sei fazer: escolher! Qual prato do cardápio, qual sobremesa do buffet, qual série no Netflix, qual dos eventos marcados no mesmo dia (quem sabe uma passadinha em todos?), imagina as decisões importantes então? E tudo isso por medo de escolher errado e deixar o certo de lado. 

Hoje era dia de escolha.

Cansada do sábado (e da semana, e do mês, e muito provavelmente do ano), com ingressos comprados pra um show infantil, não sabia se mantinha a programação combinada com as crianças, ou desperdiçava ingressos, tomava um energético e ia pra Gramado comemorar o aniversário da minha mãe, bem mais importante afinal. Mas aí para, pensa na estrada, no dinheiro gasto, na expectativa das crianças, sai pra correr, sofre, compra presente, lembra que tá exausta, vai buscar as crianças que dormiram fora, nem tira a roupa da corrida, mas pega o presente. Decisões contraditórias da maluca da indecisão. Pois então tive a ousadia de entregar na mão da Mel a escolha.

- E aí Mel, o que a gente faz?

A primeira resposta foi aquela esperada: eu queria fazer as duas coisas! Bem vinda ao meu mundo, Mel! Conversa daqui, analisa dali, com o carro parado, virei pra trás e insisti:

- O que a gente faz?

Eis que então ela começa a chorar e grita:

- Eu não consigo escolher, mamãe!

Ah, meu amor, me perdoa. Eu te entendo tão, mas tão bem. Quem escolhe, sempre deixa. Mas acredita, nem sempre escolhe errado.

domingo, 28 de setembro de 2025

Poção do sono

As crianças ganharam um livro de magia da minha irmã. Melissa comunicou que a primeira poção que a gente faria, seria a poção do sono, porque as vezes ela tem muita dificuldade de dormir.

O leite morno da noite com uma gota de sonho (baunilha), um quase nada de pó encantado (canela) e algumas palavras mágicas (algo do tipo pirlimpimpim, poção mágica faça as crianças dormirem fácil assim!), viraram a poção do sono.

Lucas, pragmático, me pergunta desconfiado:

- Mãe, quando faz efeito e a gente começa a se acalmar?"

Incentivo ele a imaginar

- Lembra que se tu acreditar, vai funcionar!

Mel, sonhadora, nem pestaneja:

- Eu já tô até me sentindo relaxada, sabia que ia dar certo!

Um livro e três poemas depois, só eu seguia acordada. Certamente porque não bebi a poção.

"As pessoas sem imaginação, podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

(Mário Quintana, Lili inventa o mundo)


quarta-feira, 23 de julho de 2025

Feliz no simples

 Com grana curta ou não, as férias de inverno sempre chegam. A pessoa aqui, que não consegue simplesmente ficar em casa à toa, pra não ver duas crianças entediadas (crianças entediadas, ahã) resolveu fazer o melhor dentro do possível: Floripa, casa da amiga, um dia no Beto Carreiro e assim teríamos algo próximo a "férias de verdade". Quis o destino que um dia antes da viagem à Penha, ontem no caso, Mel tivesse febre. Eu, que não tinha comprado ingressos antecipados mas tinha definido que depois de quarta não encararia a empreitada, meio que fiquei triste, mas também meio que agradeci. A previsão de tempo na fila por brinquedo somada ao custo final da brincadeira, não seria exatamente a melhor maneira de sair da rotina nos dias atuais. Foi então que com o dia nublado, a criança mais entediada da casa aproveitou o efeito Alivium na filha e sugeriu: e se fossemos fazer skibunda? A doente topou, o irmão azedou, mas foi voto vencido, e lá fomos nós. Chegando lá, o vento crocante que nos recebeu me fez ter certeza que estávamos presenciando mais uma roubada na qual eu colocava meus filhos nessa vida. Mas isso foi só até acharmos o lugar certo e um pouco mais protegido, porque a partir daí, foi só areia na cara e alegria. E com direito a sol!

Ainda ontem brincava com um amigo sobre ser feliz no simples. Pois os 10 minutos que levei pra chegar na Lagoa somados aos 30 reais gastos no aluguel de uma pranchinha de madeira, talvez sejam uma boa tradução pra isso.

domingo, 13 de julho de 2025

Música entre gerações

 Eu amo ouvir música. Meus ouvidos chegam a estranhar quando o Dpotfy finalmente descansa. E de uns tempos pra cá, as músicas infantis caíram em desuso aqui em casa, e minha dupla curte as músicas da mamãe sem reclamar. E isso deixando claro que migro de Gilsons pra Imagine Dragons, passando por Shakira, Beatles, Beth Carvalho e Chitãozinho e Xororó (só Evidências, mas precisamos apresentar desde cedo).

Pois quando vi que na próxima Balonê Kids ia ter show da Ultramen não pensei duas vezes: vão conhecer a banda gaúcha mais tri com a mamãe.

Depois de uma manhã no parque de diversões, nem parei em casa pra não correr o risco de não conseguir mais sair de lá. Mezzo reclamando, mezzo curtindo o agito do dia, eram 15:05 quando chegávamos na festa que mal tinha começado. E somente duas horas de muito pula pula, pipoca e algodão doce depois, o show começou, como já era o programado.

Tinha tudo pra dar errado, afinal eram duas crianças e uma garupa só, já meio esgualepada. Mas de repente estávamos os três dançando e já nem tinha importância se víamos o palco ou não. Só fomos embora depois da última música, suados e exaustos. Liguei o carro, e antes que o Spotfy criasse vida própria, o Lucas falou:

- Mamãe, como tava bom o show!

Na semana em que fui ao show do Kleiton e Kledir com o Vitor Ramil, de quem aprendi a gostar com a idade deles, graças ao meu pai, sorri imensamente vendo a história se repetir.

sábado, 5 de julho de 2025

A bicicleta dourada

Eu não lembro do dia que ganhei minha Cecizinha dourada, nem de andar nela ou mesmo de quando tirei as rodinhas. Mas imagino serem boas as lembranças, ainda que apagadas da memória, pois quando meus pais venderam a casa, a única certeza que tinha é que ela ficaria comigo.

Um ano depois de trazer pra Porto Alegre e deixar ela parada na porta de casa, finalmente minha Cecizinha dourada foi consertada! Pedais novos mas muito parecidos com os originais, uma buzina americanizada escolhida pela nova proprietária, rodinhas pra pegar o jeito e um banco retrô bem fofo completaram o conserto. A única coisa que a mãe aqui não pensou, foi que a filha poderia sequer alcançar os pedais depois de tanta expectativa criada. Pois hoje fomos buscar a bicicleta e ao ver a Mel sentar no banco, faltaram uns três centímetros pra dar tudo certo.

E foi assim que o banco retrô fofo e lindo foi automaticamente substituído por um banco moderno, feioso e magricelo que cumpriu lindamente a função de reduzir os centímetros suficientes pra ver o sorriso na carinha dela ao dar seu primeiro passeio na bici "nova".

terça-feira, 24 de junho de 2025

Ginástica

Ser mãe é uma ginástica.

Semana passada marcaram uma reunião importante em Guarulhos. Quando fui colocar na agenda, dei de cara com "apresentação ginástica Mel". Ah, meu senhor... Não querendo abrir mão de nenhuma das duas coisas, só pedi: eu vou, mas preciso estar em Porto Alegre às sete! Passagens compradas, só dependeria da boa vontade da Azul (e do vendaval que se instaurou em Porto Alegre). Um Uber, um vôo turbulento, um ônibus pro terminal certo, uma reunião de duas horas, uma corrida pra pegar o ônibus de volta ao terminal de embarque, mais um vôo turbulento e outro Uber em meio ao trânsito do fim do dia, e às 18:37 eu descia perto do Colégio a tempo de tentar comprar flores pela apresentação da guriazinha. Frustrada com as duas floriculturas fechadas, fui pro ginásio onde as mães das colegas tinham feito meu papel de maquiadora e cabeleireira além de ter guardado um lugar bem na frente, enquanto o pai organizava a logística do outro filho. Sentei exausta, mas ao ver ela linda correndo até mim e gritando aquele "mamãe" que enche uma casa, meu cansaço praticamente se desfez. E após mais ou menos dois minutos e treze segundos de apresentação, onde minha ginasta acertou metade da coreografia e acertou do jeito dela a outra metade, ela surgiu novamente na minha frente, sorrindo feliz.

- Foi lindo, meu amor! A mamãe tem um mini presente pra ti. Não consegui comprar flores mas trouxe outra coisa...

- Balinha de avião!!! Eu amo balinha de avião mamãe, brigada!

Ô ginástica que traz resultado, se não pro corpo, pro coração.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Histórias

Feriado, chuva, café na cama, slime, tema, cara a cara, tédio... Lucas pede pra jogar vídeo game. Mel me olha e pergunta:

- E agora, mamãe, o que a gente pode fazer... Já sei! Tu lembra que eu sempre te peço pra contar histórias de quando tu era mais nova?

- Tá bem, que história tu quer saber?

De uma vez que tu te machucou. De um Natal que foi bem diferente quando tu era criança. De um aniversário que tu gostou muito quando era adolescente. Da primeira vez que tu lembra de ter ido pra praia. Do dia que tu pegou a Pulguinha.

E assim, juntas procuramos uma cicatriz que se perdeu no meio das ruguinhas da minha testa, resgatamos a boneca que ganhei no Natal que passei mal de tanto comer nozes, olhamos todos álbuns de fotos disponíveis e lá achamos meus 15 anos com minhas melhores amigas, passeamos pela praia dos Ingleses e terminamos lá na Miguel Tostes vendo nossa preta veiusca bem pequeninha. 

E quem diria que o encantamento e curiosidade dela por coisas tão comuns me levassem a re(vi)ver  momentos tão aleatoriamente especiais.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Incongruências

Uma das maiores incongruências em ser uma mãe separada, é passar dias seguidos, intensos, por vezes muito mais turbulentos que divertidos, dividindo tuas horas entre temas, trabalhos, uniformes, reuniões, mochilas, planilhas, teimosias, corridas, correrias, lanches, clientes, documentos, sentimentos, brigas, professores, gritos, desculpas, banhos, insônias, lágrimas, deles e tuas. E no exato momento em que os deixa e vira as costas, sabendo que naquela noite não vai os ver, sentir teu coração murchar ao invés de aliviar.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

A menor de todas

Hoje peguei a Melissa com dois bolinhos de papel higiênico na mão. Quando me viu, se envergonhou e tentou esconder. Pensei comigo, só o que me falta essa pirralha já querer fingir que tem peito! Deixei passar um tempo e fui atrás dela conversar, lembrando que a gente é melhor amiga e não tem segredos.

- Tá bom, mamãe, eu não vou mentir. Eu fiz essas bolinhas pra colocar no meu tênis pra ficar mais alta.

Quase derreti. Uma criança linda, esperta, amada por todo mundo, ate estão, na minha cabeça, super bem resolvida, preocupada em ser mais alta. Expliquei que ela não precisava ficar mais alta por nenhum motivo, que era uma bobagem, que não faria bem pra postura dela, e na loucura das manhãs, me preocupei mais em colocar o tênis de uma vez. Ela trocou o papel por duas meias, achando que isso resolveria a questão, e eu prontamente lembrei ela que não podia e fim! 

- Mas mamãe, tu não tá me escutando!

E de repente aqueles olhinhos verdes cheios de lágrimas que imploravam pra ter atenção, me lembraram uma outra guriazinha, que lá pela década de 80 ficava com seus olhos castanhos cheios d'água toda vez que era lembrada que era um palito, um projeto, um esqueleto, uma lombriga mal enchido, entre outros apelidos dados por colegas ou familiares, por ser a mais magra, e que com isso sofria a ponto de fazer dieta para engordar.

Já com tênis nos pés, sem bolinhos de meias nem de papel, peguei ela no colo, olhei lá no fundo daqueles olhos que param o trânsito diariamente e falei:

- Meu amor, tu é linda, independente da tua altura. E independente da tua altura, tu vai continuar sendo essa guriazinha maravilhosa, inteligente, esperta e divertida.

- Mas eu odeio ser sempre a menor de todas...

- Ser a menor em altura não é ser a menor em mais nada além disso, pode ter certeza disso meu amor.

E assim, abracei bem forte a minha pequena filha, a menor de todas, e também aquela pequena Kelen, a mais magricela de todas.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Nescau

"Bom dia, mamãe, faz meu nescau?" ou a variante "Posso ver um pouco de tablet?".

Um despertar eestabelecido invariavelmente entre seis e sete da manhã nos últimos dez dias. Faço um exercício qualquer. Como uma coisa qualquer. Arrumo a mochila, preparo dez tipos de lanches [mesmo sabendo que isso não evitará o ataque ao picolezeiro, ou milheiro, ou açaízeiro, ou aos três]. Vem passar protetor. Já escovou os dentes? Para de se mexer. Meu olho! Não foi no olho! Bora, tudo certo? Coloca o cinto! Cadê o chinelo? Volta e pega o chinelo. Coloca Meu abrigo? Não, Cheerleader! Eu quero Várias queixas! Cantamos, e como, e passado um tempo, chegamos. Pego a mochila, a sacola de lanche, e de brinquedos, a barraca, um filho, dois filhos. Cadê a chave do carro? Na polchete, santa polchete. Armo a barraca. Posso ir no mar? Espera a mãe montar o acampamento. Estico a canga, que em três minutos está tapada de areia e tudo bem, pois não ficarei nem cinco sentada [quem dirá deitada] nela. Mamãe! Tô indo. O mar tá uma delícia! Volta, Melissa, perto do teu irmão. Cuidado, Lucas! Picolezeiro, mamãe! Dois picolés e trinta reais a menos depois, que mais tem pra comer? Passam-se horas em um grande looping. Vão tirar a areia, vamos. Eu nem brinquei! Mais quinze minutos! Desarma o acampamento. Deu, vamos. Ah não. Ah sim. Não é justo. Sobe no carro. Mamãe, coloca... não, agora sou eu que escolho! Ah, essa eu gosto. Abençoada casa. Banho, os dois, subam já! Tiro areia de tudo, estendo tudo, lavo tudo, organizo tudo. Parem de brigar, eu vou subir! A Mel que... não interessa! Desçam já! Mamãe, fome. E sede. Pega água no filtro. E pega uma banana. Não é fome de banana. Faço um lanche. Mais fome. Faço dez lanches. Fo... chega! Alimento as cachorras. Vou correr, não se mexam, só respirem! Voltei, tudo certo? Maldita-bendita tela, nem respondem. Vou na piscina. Vou tomar banho. Vou embora! Quê, mamãe? Estão surdos? Faço a janta. Venham. Limpa a boca. Olha o copo! Lavo a louça. Mamãe, quero colinho. E meu leite. Tô indo. Dou cinco minutos de colo, dorme um, dormem dois, carrego um, carrego dois. Desço, desligo tudo. Rua, Dora. Fecho a casa. Subo. Vou ler. Leio meia página, capoto até o próximo pedido de nescau. Tô exausta e já com saudade. Não exijam coerência de uma mãe.



quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Mentiras

 Hoje, em mais uma noite de raios e trovões, Mel correu pra minha cama. Mas diferente do usual, não voltou a pegar no sono. De tempos em tempos repetia:

- Mãe, tô com muito medo!

[Eu também, meu amor. Da chuva, dos raios, dos trovões, do futuro, do presente, por mim, por ti, pelo mundo, pelas minhas decisões, pelas decisões que não são minhas, da vida, de (quase) tudo]

- Vem cá, me abraça. Não precisa ter medo, meu amor, a mamãe tá aqui.

Ser mãe também é mentir. E cair um pouco na mentira contada pra poder voltar a dormir.

domingo, 17 de setembro de 2023

Gêmeas

Eu sou a ídola master da Mel, posso afirmar isso com absoluta certeza aqui do alto da minha baixa auto estima. Ela me olha com uma admiração que nunca ninguém me olhou. Ela quer ser igual a mim em tudo. Ela me diz diariamente que eu sou linda, que minha roupa é linda, que meu corpo é lindo, que o que eu fiz ficou lindo. Que responsa ser essa pessoa! Hoje eu queria colocar um macacão nela, a louca dos vestidos, e incrivelmente ela topou, mas pediu que eu colocasse também. "Aquele verde", diz ela, falando de um macacão que eu mesma nem lembrava que tinha. E assim fomos escolhendo o resto juntas. Sapatos dourados, prendedor combinando, bolsa no mesmo tom, o mesmo batom, o lápis verde nos olhos. Tínhamos que ficar iguais. Ficamos, ou quase.

- Mamãe, a gente ficou muito linda! E muito gêmeas! Menos os olhos e a voz, né?

Um dia quero me ver com teus olhos, meu amor.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Filhos

Tenho pensado muito nas barreiras que a maternidade impõe, o quanto ter filhos limita e transforma aquilo que éramos antes. Horários e tempos, viagens e programas, escolhas e decisões. Por mais que a gente se esforce e consiga fazer mil coisas, sempre serão eles a definir, de alguma forma, os limites de até onde realmente iremos. A grande sorte é que eles também fazem grandes conexões. De novas amizades a diferentes formas de reviver a nossa infância, são conectores de infinitas descobertas sobre eles e sobre nós mesmos, um estímulo constante que nos leva para outros mundos. Filhos são cercas mas também são pontes.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Arerê

 Já pulei muito Carnaval. Me surpreende pensar nisso hoje, demofóbica que sou. Me dá um nervoso não ter espaço, cada um querer ir para um lado, não conseguir ouvir, ver, passar ou chegar. Mas pulava, ô se pulava. Me divertia, perdia caixas pretas carnavalescas, chegava em casa de manhã. E me surpreende pensar nisso hoje, matutina que sou. Sou amiga do sol, do dia, do entardecer e depois dele gosto mesmo é da minha casa, da minha cama então nem se fala. Mas iam longe as noitadas, ô se iam. E eram noites seguidas, cantando Arerê, um lobby, um hobby, um love com você. Fiquei pensando se a gente muda, se descobre, se aceita, ou de tudo isso um pouco. Hoje me colori pra enfrentar filas, suor e empurrões, mas com dois filhos felizes juntando confete do chão e se divertindo pra valer. Ah! E dormirei cedo, depois de ter até cantado Arerê.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Férias escolares

 Ah, férias escolares dão o que falar. Filha com diarreia, filho com vômito, tá de lascar. Pelo menos de manhã teve banho de mar. Que bom que eu vim pra praia e tenho uma pessoa pra me ajudar, além de um pai e um irmão médico pra consultar. Lembrei agora das férias escolares que tive piolho, melhor nem pensar. Visualizei minha vó catando lêndeas com vinagre por horas a fio a me pentear. Deve ter alguma lei divina que manda essas encrencas nas horas erradas pra nos testar. Tem que rir pra nao chorar e as pessoas não cansam de lembrar: "é só o começo, ano que vem vão ser dois meses". É... vai piorar. Ah, o mar, vou voltar. Tem mesmo que trabalhar? Essa mandala na parede veio bem a calhar. Acorda, para de sonhar! (Tava só rimando um pouco pra não surtar). Liga a câmera e te apruma aí que a reunião vai começar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Folga

Desde que vim passar esse periodo no Rio, a pergunta que mais tenho recebido ultimamente tem sido disparado: "e a saudade?". A resposta sai fácil porque é uma saudade sem medida, ela é gigante, é de ter vontade de entrar na tela e encher de amassos e de beijos. Mas é uma saudade que não dói. Dá pra entender? Porque eu vejo eles todos os dias e eles parecem tão felizes. Saudosos, óbvio, mas felizes da vida! E com meu marido nota dez sendo um pai nota mil somado a uma diarista que virou a santa ajudante de todas as manhãs eles estão dando conta do recado bonito (espero que minhas plantas estejam vivas, viu?). E também porque, e não me julguem por esse trecho, tô com saudade mas numa folga que olha, puta que pariu. Atenção meus empregadores, isso não significa que eu não esteja trabalhando, tô trabalhando tipo bicho. Considerem que vocês me concederam tipo umas férias da família remuneradas, uma espécie de viagem padrão perrengue chique. A real é que não tem montagem que supere o trabalho que é ter uma casa cheia de seres, não tem BO mais difícil que cuidar de uma família, não tem cansaço maior do que um dia inteirinho com um marido, dois filhos e dois cachorros e ainda por cima o tal do trabalho! Desculpa, eu amo vocês, viu marido? Mais que tudo na minha vida todinha, mas dá um trabalho da porra e depois desses dez dias sozinho tenho certeza que ele assina embaixo! Dá tanto trabalho que me vejo volta e meia num não saber o que fazer com o tanto de tempo que eu tenho por aqui mesmo depois de trabalhar oito horas. Dia desses num desses stories, minha irmã fez a tal pergunta. Eu respondi explicando tudo isso e ela resumiu melhor que eu: "eu te entendo, é uma paz com remorso, né?". Ô se é.

domingo, 22 de maio de 2022

Verborragia

Deito no meio dos dois. Lucas dorme antes de eu completar a meu tradicional "boa noite, meu amor, te amo". Melissa termina seu mamá e começa a verborragia.

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"Mamãe, ontem eu sonhei que a minha profe de ballet tava aqui em casa ... Onde tá a minha teta? ... O coelhinho da Páscoa veio e escondeu os bichinhos e a gente achou ... Já pensou se eu voasse de capa e de máscara e de saia? Eu ia ser super-heroína. E menino usa calça e é super-herói. E a gente vai  lá e mata os vilões ... Mamãe, a gente precisa comprar um vestido de ballet de manga curta e sem sapatilhas ... Eu quero dormir com a minha mamãe, sem cobertinha ... Quando a gente dorme o cabelo da gente fica bagunçado. Amanhã a gente acorda e eu ponho ele assim, pra baixo ... Mãe! Sabe que desenho a gente nao viu ontem? Momonstros. A gente tem que ver Momonstros! E a gente não tem um Uglydoll laranja. Já pensou se a gente tivesse tooooodos Uglydolls?... Mamãe, quem torce pro Palmeiras? (oi?). Amanhã eu pergunto pro papai, ele sabe."

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E eu me seguro pra não pegar no sono antes dela ou pior! Esquecer  uma vírgula que seja da conversa mais delícia do mundo.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Programa Legal

Terça-feira, tu resolve levar as crianças prum programa legal e de quebra tomar uns drinks com as amigas. Trânsito dos infernos. Não senhora, não pode ser nesse estacionamento. Volta na quadra. Estaciona. Quero levar minha boneca. Cheguei! É 35 reais. Ok. Trouxe meia? Que meia? Antiderrapante. Claro que não. 15 reais. Me ajuda a por a meia aqui, amiga. Vai lá, Lucas, te comporta. Tento economizar... Mel, vamos na pracinha? Eu quero pulaaaaaar. Mas tu é pequena, meu amor. Eu sou grande do Maternal dooooois. Vamos lá então, Mel, o que são mais cinquenta reais... Com a pequena a senhora tem que entrar junto.  Ah meu pai, que cansaço. Ela tem meia? Que pergunta... Pelo menos a mãe não paga. E nem precisa da meia! Eu quero pular de tênis! Não pode. Mas eu queeeero. Senhor, vou estrangular alguém. Moça, posso pular? Claro! Vem que eu pulo contigo. É divertido! Caceta, vou fazer xixi nas calças. Moço posso ir no banheiro? Vai que eu cuido dela. Voltei!  Manhê!!! Aiiiii! Quase pisei na criança. Ainda bem que foi só meia hora. E que teve drink depois. (Interrompido por um pedido pra fazer cocô, dois pra pegar sorvete, quatro pra dar colo, oito de vem colocar o casaco e dez de eu não quero casaco. Mas teve!)

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Sentimentos

Tenho uma vontade meio Black Mirror de desenvolver uma tecnologia capaz de "salvar" momentos com um piscar de olhos.

Pisquei, salvou na pasta filhos/momentosquenaoqueroesquecerjamais.mp4, numa nuvem mágica que permite reviver e sorrir revendo esses momentos quantas vezes quiser, seja hoje, amanhã ou quando eles já não quiserem mais tanto meu colo, ou quando não for mais tão divertido cantar pra mim (quisera eu que isso não acabasse nunca!). Enquanto essa tecnologia não chega, vou armazenando as memórias no coração, porque o celular, esse consegue registrar mais ou menos 1% de tudo de especial que eles me entregam diariamente.

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Hoje em meio à palavras que a Mel queria saber em inglês, ela me perguntou:

- E brabo, mamãe? Como é? E assustado? E qual outro sentimento tem?

Pensei cá comigo, como assim "sentimento", sua fedelha? O que já entende de sentimentos, essa minúscula? Do que ela já entende eu não sei, mas que sabe me transbordar deles, disso eu tenho certeza.