segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A hora do trelelé

 Semanas atrás depois da avaliação do trimestre na escola, percebi que precisávamos conversar (ainda) mais com as crianças. O problema é que a hora em que eles mais querem falar, a hora que vem tudo e mais um pouco à mente, é na hora de ir dormir. E nessa hora, bem nessa hora, tudo o que eu mais quero é não falar mais sobre nada, ler o livro escolhido da noite até eles pegarem no sono e só. Mas se essa é a hora que temos, essa é a hora que usaremos. Quando fomos deitar naquela noite expliquei que, a partir de então, toda noite que eles estivessem comigo a gente conversaria sobre todos os trelelés que tivessem acontecido durante o dia. Não sei nem de onde saiu aquela palavra, mas desde então ficou instituída a hora do trelelé. E nessa hora vem de tudo. De coisas desencavadas de anos atrás à coisas certamente inventadas. Acontecimentos ora fofos, ora bobos. Mas no meio de muita bobagem, vem muita coisa importante também, como se falar besteiras ajudasse a chegar nas questões verdadeiras. E aí aparecem incômodos reais que consigo ajudar a resolver, a entender, a saber como lidar, a mostrar o outro lado, a explicar que nem sempre temos razão, a mostrar que muitas vezes precisamos dividir a responsabilidade do que acontece com a gente, que a culpa nem sempre é (só) do outro. E acima de tudo, consigo acolher. E quando as cabeças esvaziam, se tranquilizam de tal forma que eles dormem antes de eu virar a primeira página do livro.

[e eu que durma com os meus trelelés somados aos deles também]

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A minha criança

 Tenho procurado na minha criança muito do que explica a adulta que me tornei, e está incrivelmente quase tudo lá. A parte boa e a parte ruim. As minhas coragens e os meus medos. As minhas vontades e os meus segredos. Meus sonhos e pesadelos. Costumam dizer que precisamos manter a nossa criança viva dentro da gente. A frase soa linda, como se a nossa infância trouxesse pra nossa vida apenas o lúdico, o colorido e o feliz ou a capacidade de imaginar, inventar e sonhar. Como se a nossa criança não carregasse também todo um outro lado de lembranças ruins, traumas e assombros que fizeram parte desta mesma infância. Acho que o maior problema de nós adultos, é acabarmos carregando muito mais da segunda parte do que da primeira.

Meu desejo diário é que meus medos não me travem, que minhas vontades sigam me movendo, que meus sonhos não se percam. Que eu use a energia daquela guriazinha, que eu nunca perdi, pra reacender cada vez que a vida me apagar. Que eu mantenha a minha emoção, mas que nunca deixe ela me cegar. Que eu use a minha mente aberta pra cada vez mais entender, aceitar e curar as feridas dessa criança que eu fui. E que assim eu consiga carregar a melhor parte dela pra sempre em mim.