Há dois anos quando meus pais venderam a casa onde moraram por cerca de 40 anos, fizemos um churrasco no pátio de despedida. Durante este dia, meus irmãos e afilhados jogavam sacos cheios de quinquilharias guardadas no sótão, que eu revirava com gosto e sempre catava alguma coisa pra trazer pra minha casa. Uma boneca Bem-me-quer sem roupa, um patins que ainda não serve em ninguém, a caixa de iogurte daquele restaurante macrobiótico delicioso, meus trabalhando do Jardim de Infância. A casa não poderia ir embora sem eu levar um pedaço dela, ou ao menos da história que a gente viveu ali. Escolhi também algumas plantas, dentre elas uma Dama da Noite que ficava na varanda do quarto que havia sido primeiro da minha avó, e alguns anos mais tarde o meu. Minha mãe me explicou que a flor durava um noite apenas e desde então fiquei na expectativa de quando ela viria. O que descobri em seguida é que ela realmente dura uma noite só, mas são várias delas ao longo do ano. E a cada botão que surge, eu fico atenta ao processo para poder observar e registrar. Esta semana, uma dupla apontou ao mesmo tempo. Passei a observar todos os dias até que quinta percebi que elas iriam desabrochar e resolvi registrar. É como um lindo orgasmo da natureza, sabe? Elas se excitam, enrijecem, abrem, exalam o melhor perfume, explodem e murcham. E eu acompanho cada um deles feliz por ter trazido esse pedacinho de casa pra cá.
Eu tenho essa coisa de apego. A lugares, a coisas, a pessoas. Por isso minha casa é esse grande relicário. De histórias, de viagens e até de pessoas. São minhas relíquias sagradas que fazem eu voltar no tempo por minutos só de olhar. Tenho aprendido (ou tentado aprender) a me apegar menos a tudo, o que é muito difícil, pra quem tem tanto amor pra dar. Tenho aprendido que nem todos ciclos se fecham da forma esperada, as vezes se rompem, seja uma casa vendida ou uma história mal acabada. Talvez a Dama da Noite venha me ensinando que nem mesmo os ciclos que se fecham terminam bem, mas isso não tira a beleza do que houve nele.sexta-feira, 3 de abril de 2026
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
Feliz Natal
Natal é a data do ano que mais nos ensina a dividir, desde que somos pequenos. E falo em dividirmos bem mais que presentes, panetones ou que as disputadas coxas do peru. Dividimos um tanto os nossos corações.
Quando eu era criança, dividíamos as nossas noites entre o Natal na nossa casa com parte da família da minha mãe e o Natal na casa da minha avó paterna e sua enorme família. Em determinado momento deixamos de dividir nossa noite, mas meu pai continuou se dividindo.
Ao longo dos anos da minha adolescência e em seguida na vida adulta, quando estava namorando, nos dividíamos por eu ser de outra cidade, e cada um passava o Natal com a sua família, ou às vezes, alguém abria mão de estar com a sua, dividia o coração e passava com a família do seu par.
Quando casei, virou regra nos dividirmos por ano, e a cada Natal passávamos com uma das famílias. Essas divisões nunca foram fáceis, queremos sempre estar com os nossos familiares, costumes ou tumultos Natalinos. Mas pelo outro, dividíamos.
Provavelmente quando estávamos nos acostumando a isso, veio a separação, e agora, são meus filhos que começam a aprender a se dividir. A ceia do dia 24 em Gramado com a família da mamãe, o almoço do dia 25 em Porto Alegre com a família do papai. Uma véspera feliz pra mim e difícil pro pai, e no dia seguinte, o inverso. Essa divisão dói, afinal é Natal, queremos estar com os nossos, né?
Mas espero continuar conseguindo fazer isso carregando o espírito de Natal dentro de mim: mesmo que com essa pitada de dor e tristeza, também com amor e leveza.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Novembro
Novembro se foi
E eu também
Mas fui até ali e voltei
Corri, parei e já recomecei
Gargalhei e chorei
Revivi e vi que superei
Senti, resisti, segurei
Desembaracei jibóias e operei
Andei de balanço e dancei
Brinquei e também briguei
Comemorei e por fim descansei
Coube quase um ano em novembro
Que respeitou melhor o tempo
Mas agora é o ano se indo
E dele já nem sei.
2025 teve seus versos
Mas não foi exatamente poético
Vai que com uma rima
dezembro entra no clima.
sábado, 18 de outubro de 2025
Quem escolhe deixa
Há uns 30 anos, tive um professor que me ensinou: quem escolhe, deixa. E taí uma coisa que não sei fazer: escolher! Qual prato do cardápio, qual sobremesa do buffet, qual série no Netflix, qual dos eventos marcados no mesmo dia (quem sabe uma passadinha em todos?), imagina as decisões importantes então? E tudo isso por medo de escolher errado e deixar o certo de lado.
Hoje era dia de escolha.
Cansada do sábado (e da semana, e do mês, e muito provavelmente do ano), com ingressos comprados pra um show infantil, não sabia se mantinha a programação combinada com as crianças, ou desperdiçava ingressos, tomava um energético e ia pra Gramado comemorar o aniversário da minha mãe, bem mais importante afinal. Mas aí para, pensa na estrada, no dinheiro gasto, na expectativa das crianças, sai pra correr, sofre, compra presente, lembra que tá exausta, vai buscar as crianças que dormiram fora, nem tira a roupa da corrida, mas pega o presente. Decisões contraditórias da maluca da indecisão. Pois então tive a ousadia de entregar na mão da Mel a escolha.
- E aí Mel, o que a gente faz?
A primeira resposta foi aquela esperada: eu queria fazer as duas coisas! Bem vinda ao meu mundo, Mel! Conversa daqui, analisa dali, com o carro parado, virei pra trás e insisti:
- O que a gente faz?
Eis que então ela começa a chorar e grita:
- Eu não consigo escolher, mamãe!
Ah, meu amor, me perdoa. Eu te entendo tão, mas tão bem. Quem escolhe, sempre deixa. Mas acredita, nem sempre escolhe errado.
domingo, 28 de setembro de 2025
Poção do sono
As crianças ganharam um livro de magia da minha irmã. Melissa comunicou que a primeira poção que a gente faria, seria a poção do sono, porque as vezes ela tem muita dificuldade de dormir.
O leite morno da noite com uma gota de sonho (baunilha), um quase nada de pó encantado (canela) e algumas palavras mágicas (algo do tipo pirlimpimpim, poção mágica faça as crianças dormirem fácil assim!), viraram a poção do sono.
Lucas, pragmático, me pergunta desconfiado:
- Mãe, quando faz efeito e a gente começa a se acalmar?"
Incentivo ele a imaginar
- Lembra que se tu acreditar, vai funcionar!
Mel, sonhadora, nem pestaneja:
- Eu já tô até me sentindo relaxada, sabia que ia dar certo!
Um livro e três poemas depois, só eu seguia acordada. Certamente porque não bebi a poção.
"As pessoas sem imaginação, podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."
(Mário Quintana, Lili inventa o mundo)
sábado, 27 de setembro de 2025
Sábados
Primavera me faz bem. Acordar num sábado de sol me deixa feliz. Parei numa sinaleira e me distrai cantando. Eu adoro essa música. Ouvi uma buzina e voltei a mim. Ele gesticulou com as mãos. Eu me desculpei. Paramos na próxima sinaleira. Ele voltou a gesticular. Eu mandei um beijo. Ele fez aquele gesto de "tu precisa de um pau bem grande". Eu fiz um coração com as mãos. Ele fez aquele gesto "tu precisa trepar". Eu não acreditei que um velho do lado de uma mulher idoda estava estava fazendo aquilo. Ele passou do meu lado e parou na próxima sinaleira. Eu fotografei o carro dele. Ele se assustou e assim que pode saiu da minha frente. Sem dar seta. Que teus desejos se realizem, meu senhor, eu ainda posso, já o seu querido não deve subir há tempos, talvez por isso tanta amargura.
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Imigração
[inmigración es cosa seria]
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
Desculpa, não vou
Dia desses em uma reunião, um engenheiro começou a me desrespeitar. Um comentário desnecessário, uma grosseria gratuita, um sorriso irônico, até que minha calma, que muito aumentou com o tempo mas ainda se esgota facilmente, me fez levantar a voz. Imediatamente recebi uma mensagem de uma pessoa na mesma reunião: você é braba, hein? Ficou a dúvida se o engenheiro em questão teria recebido alguma mensagem crítica também.
Ontem sentei em uma mesa de bar com uma amiga que consigo encontrar muito menos do que gostaria, e em minutos havia um sujeito bêbado e inconveniente, debruçado na nossa mesa, jorrando cuspe ao falar com a língua enrolada, colado em nós. "Boa noite, o que tu vai pedir? Não, pede um negroni, posso incomodar vocês?" Sorrindo, respondi a minha bebida, avisei que não, nem eu pediria um Negroni, nem ele poderia incomodar. Ainda inconvenientemente e jorrando cuspe recebi um sonoro "que grossa".
Cito os dois últimos casos, de inúmeros.
É um estigma que carrego. Ser direta, honesta, em geral séria, muitas vezes dura, tudo isso transformado automaticamente em grossa, que sim, muitas vezes também sou. Assim como sou espontânea, debochada, divertida, irônica, sensível, carinhosa e amorosa. Nos momentos e com as pessoas certas.
Mas vivemos numa sociedade onde temos que baixar a cabeça ou sorrir pra tudo e todos. Não podemos revidar à grosserias com grosserias ou mesmo ironias. Devemos ser atacadas, interrompidas, agredidas, silenciados, desrespeitadas, ofendidas, invadidas, sorrindo, educadamente, e em silêncio se for possível.
Desculpa, não vou.
domingo, 24 de agosto de 2025
Embasamento científico
Tenho uma teoria em relação à saúde, baseada em um total de zero dados científicos, que é a seguinte: quanto mais doente me sinto, mais doente eu fico. Acordei já cansada, dor no corpo, moleza, certo que é uma gripe chegando, fiquei na cama? É garantia de ladeira a baixo. Levantei de arrasto, mas lavei o rosto, coloquei uma música, tomei café e saí de casa? Em seguida nem lembro que acordei destruída. Pensei nisso hoje porque passei a semana assim. Todos os dias eu poderia [poderia, rá! poderia se eu pudesse poder!] ter ficado em posição fetal até gastar a cama de tão exausta e mal dormida e mole e bah... Não podendo [nem querendo] ficar mal, tirei forças do dedão do pé e levantei todos os dias, e lavei o rosto, e coloquei uma música, e tomei café, e saí de casa, e fiz a semana acontecer como se nada estivesse acontecendo. Domingo não foi diferente. E foi olhando o pôr do sol absurdamente lindo e inesperado de hoje, que me dei conta que digo isso em relação a estar doente, mas poderia pensar assim em relação a muito mais: quem sabe testar um quanto mais feliz me sinto, mais feliz eu fico? Não tem nenhum embasamento científico, mas também nada que diga que não possa funcionar.
sábado, 16 de agosto de 2025
Vestido verde
Há exatamente um ano escrevi um texto sobre separação.
Abro grandes parenteses pra dizer que escrever foi a forma que encontrei há tempos de tirar emoções de dentro de mim. Perdi o poder da fala pra essas emoções. Se envolver sentimento, eu abro a boca pra falar e choro, seja esse sentimento amor, alegria, tristeza ou raiva. Se envolver intensidade, transbordo. Não que isso deixe de acontecer escrevendo, mas nas palavras escritas, em distância segura das causas, tenho como esconder, disfarçar, reler, repensar. Mantenho um pouco do controle que me angustia tanto perder ao falar.
Fecho parenteses. Dias depois de ser escrito, aquele texto pensado somente pros meus filhos, se transformou em uma ideia de livro. Chamei a Julia pra ilustrar e quando ela me trouxe o primeiro esboço (vendo o qual me lavei chorando), pedi que ela trocasse a minha roupa. "Coloca um vestido verde, longo, solto, acho que desse jeito eu vou ser mais eu".
O boneco do livro aconteceu. A editoração do livro aconteceu. O financiamento coletivo aconteceu. O lançamento aconteceu. A ideia de livro, virou um livro de verdade. E meu hiperfoco de meses, ali parido, chegou a me jogar num imenso vazio ao atingir o objetivo de existir e de se espalhar por aí.
Hoje, vesti o vestido verde que, sem nem pensar especificamente nele, descrevi pra Julia lá atrás, e fui ler a minha história pra quem estivesse na praça. Gaguejei, me emocionei, me atrapalhei. Tive a participação dos meus dois protagonistas, do livro e da vida, inúmeras vezes, oportunamente ou não. Lembrei porque tanto escrevo ao invés de falar, mas terminei o dia orgulhosa por ter aceitado o desafio de encarar e (tentar) controlar as minhas emoções.
sábado, 9 de agosto de 2025
Tombos
Coloquei um vestido hoje e ri sozinha lembrando do tombo que levei em Santiago usando ele. "Eu vou ali comprar o saxofone e já volto", e nessa meia volta, volver, algo saiu errado e de repente me vi no chão. Na mesma velocidade que eu caí, levantei, ainda que com as mãos latejando, o vestido todo sujo e pela dor, certamente com o joelho todo ferrado. Pois se o tombo atraiu pessoas pra me ajudar, meu sorrisinho cínico e minha postura de "tá tudo bem" rapidamente as afastou. Sacudi a sujeira, respirei fundo, segurei o choro e saí andando, como se nada tivesse acontecido ou estivesse doendo, afinal, vida que segue, eu tinha um saxofone pra comprar.
Caí então nas minhas inevitáveis analogias e concluí: "tombos literais" são bem mais fáceis de lidar.
domingo, 3 de agosto de 2025
Ciclos
Não sou boa em lidar com finais de ciclos. Sei que são inevitáveis, que fazem parte da vida, que abrem novos, quiçá melhores, e ainda assim é um processo e tanto aqui dentro, desde sempre.
Hoje, chegando em Gramado, quando tive que escolher vir pelo Centro ou pela F.G.Bier, algo dentro de mim não conseguiu evitar a segunda opção. Entrei naquela que foi a nossa rua e sabia que não estava preparada pra não ver a nossa casa, mas não tinha ideia do quanto. Parei o carro e desci na chuva.
Fiquei parada naquilo que um dia foi o portão de casa e chorei, porque aí tá uma coisa na qual sou ótima: transbordar sentimentos. Chorei por esse final de ciclo, e por outros. Um soco no estômago necessário pra pessoas como eu entenderem literalmente o fim das coisas.
Que venham os próximos ciclos. E que sejam melhores, sempre.
quinta-feira, 31 de julho de 2025
Uma viagem, um poema
Um segundo em silêncio,
mas por dentro,
um punhado de sons.
Momentos ruins nos sabotam,
e tentam apagar os bons.
Do colorido para o cinza,
das nuvens para o sol.
Parada na fila,
ou esperando abrir o farol.
Estou quase chegando,
e em seguida saindo.
Me vejo correndo,
de repente caindo.
Choro, soluço,
e do nada estou rindo.
E tudo é tão louco,
e também é tão lindo,
que está tudo parado,
mas também indo e vindo.
Um dia é tão pouco...
mas depende para que.
Lembrar para sempre,
ou tentar esquecer?
Dá para ganhar o mundo,
e depois (se) perder.
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Feliz no simples
Com grana curta ou não, as férias de inverno sempre chegam. A pessoa aqui, que não consegue simplesmente ficar em casa à toa, pra não ver duas crianças entediadas (crianças entediadas, ahã) resolveu fazer o melhor dentro do possível: Floripa, casa da amiga, um dia no Beto Carreiro e assim teríamos algo próximo a "férias de verdade". Quis o destino que um dia antes da viagem à Penha, ontem no caso, Mel tivesse febre. Eu, que não tinha comprado ingressos antecipados mas tinha definido que depois de quarta não encararia a empreitada, meio que fiquei triste, mas também meio que agradeci. A previsão de tempo na fila por brinquedo somada ao custo final da brincadeira, não seria exatamente a melhor maneira de sair da rotina nos dias atuais. Foi então que com o dia nublado, a criança mais entediada da casa aproveitou o efeito Alivium na filha e sugeriu: e se fossemos fazer skibunda? A doente topou, o irmão azedou, mas foi voto vencido, e lá fomos nós. Chegando lá, o vento crocante que nos recebeu me fez ter certeza que estávamos presenciando mais uma roubada na qual eu colocava meus filhos nessa vida. Mas isso foi só até acharmos o lugar certo e um pouco mais protegido, porque a partir daí, foi só areia na cara e alegria. E com direito a sol!
Ainda ontem brincava com um amigo sobre ser feliz no simples. Pois os 10 minutos que levei pra chegar na Lagoa somados aos 30 reais gastos no aluguel de uma pranchinha de madeira, talvez sejam uma boa tradução pra isso.
domingo, 13 de julho de 2025
Música entre gerações
Eu amo ouvir música. Meus ouvidos chegam a estranhar quando o Dpotfy finalmente descansa. E de uns tempos pra cá, as músicas infantis caíram em desuso aqui em casa, e minha dupla curte as músicas da mamãe sem reclamar. E isso deixando claro que migro de Gilsons pra Imagine Dragons, passando por Shakira, Beatles, Beth Carvalho e Chitãozinho e Xororó (só Evidências, mas precisamos apresentar desde cedo).
Pois quando vi que na próxima Balonê Kids ia ter show da Ultramen não pensei duas vezes: vão conhecer a banda gaúcha mais tri com a mamãe.
Depois de uma manhã no parque de diversões, nem parei em casa pra não correr o risco de não conseguir mais sair de lá. Mezzo reclamando, mezzo curtindo o agito do dia, eram 15:05 quando chegávamos na festa que mal tinha começado. E somente duas horas de muito pula pula, pipoca e algodão doce depois, o show começou, como já era o programado.
Tinha tudo pra dar errado, afinal eram duas crianças e uma garupa só, já meio esgualepada. Mas de repente estávamos os três dançando e já nem tinha importância se víamos o palco ou não. Só fomos embora depois da última música, suados e exaustos. Liguei o carro, e antes que o Spotfy criasse vida própria, o Lucas falou:
- Mamãe, como tava bom o show!
Na semana em que fui ao show do Kleiton e Kledir com o Vitor Ramil, de quem aprendi a gostar com a idade deles, graças ao meu pai, sorri imensamente vendo a história se repetir.
sábado, 5 de julho de 2025
A bicicleta dourada
Eu não lembro do dia que ganhei minha Cecizinha dourada, nem de andar nela ou mesmo de quando tirei as rodinhas. Mas imagino serem boas as lembranças, ainda que apagadas da memória, pois quando meus pais venderam a casa, a única certeza que tinha é que ela ficaria comigo.
Um ano depois de trazer pra Porto Alegre e deixar ela parada na porta de casa, finalmente minha Cecizinha dourada foi consertada! Pedais novos mas muito parecidos com os originais, uma buzina americanizada escolhida pela nova proprietária, rodinhas pra pegar o jeito e um banco retrô bem fofo completaram o conserto. A única coisa que a mãe aqui não pensou, foi que a filha poderia sequer alcançar os pedais depois de tanta expectativa criada. Pois hoje fomos buscar a bicicleta e ao ver a Mel sentar no banco, faltaram uns três centímetros pra dar tudo certo.
E foi assim que o banco retrô fofo e lindo foi automaticamente substituído por um banco moderno, feioso e magricelo que cumpriu lindamente a função de reduzir os centímetros suficientes pra ver o sorriso na carinha dela ao dar seu primeiro passeio na bici "nova".
domingo, 29 de junho de 2025
Somelier
São 7:55, sentei agora pra minha primeira refeição em solo Paulista e escrevo enquanto espero o café que escolhi abrir. Estaria tudo bem ser a primeira refeição, não tivesse eu chegado ontem às 18:30 e comido antes disso apenas os seis nachos que vieram no lanche do vôo.
Explico. Tenho uma "profissão" paralela não remunerada em São Paulo: sou Somelier de Flats. Perdi as contas de todos que conheci nos últimos três anos, de retrofits lindos no Centro a edifícios de apartamentos minúsculos e infra de cair o queixo em Pinheiros. Fiquei uma vez na Bela Cintra num lugar que tinha um urso gigante na frente e só pensei: que coisa mais cafona. Mas quando passei da porta e senti o cheiro de baunilha no ar, abri um sorriso. A luz do quarto era branca, me doeu um pouco a alma, mas fora isso (e o urso) foi dos melhores lugares que já fiquei.
Claro que a vida não é um moranguinho, não sou "somelier de vinho caro", que seria muito fácil. Preciso achar flats BBBs, cheirosos e limpinhos e que me permitam ir a pé pro Atelier.
Nesta vinda achei um na mesma rua do trabalho e ontem, depois de percorrer um labirinto, o que é comum nos flats que deixam as unidades de locação numa localização não muito bem planejada, cheguei ao meu quarto. Ao abrir a porta, vi de cara a tampa do quadro de luz caído sobre um fogão duas bocas enferrujado. As paredes manchadas chamavam tanto atenção quanto as saboneteiras sem produtos e com cara de sujas. Acendi a luz do banheiro e o mofo no forro gritou. Usei o vaso e a descarga não funcionou. É, parece que fui enganada pelo rótulo desta vez... Ignorei a política de cancelamento e avisei que não ficaria ali. Não, amiga, uma limpeza não vai resolver, ah que bom que tu me entende, tchau.
Voltei pro Booking e tudo que queria era repetir uma hospedagem pra não ter erro às quase 23hs. Eis que o ursão cafona da Bela Cintra piscou pra mim. Azar da luz branca, vem cá e me dá um abraço, ursão!
Dezoito tretas de pagamento e um Uber depois, aquele cheirinho de baunilha novamente me fez sorrir. Corri pra pegar um restaurante aberto, mas aos domingos descobri que todos eles fecham as 22hs. Me recusei a jantar Pringles da conveniência, dormi com fome e cá estou.
Mas por falar em fome, meu café chegou.
Brilho
Olhei uma foto hoje no Foco Radical e me achei muito corredora (sendo bem irônica comigo mesma). O engraçado foi que pouco antes, uma pessoa me escreveu dizendo que lembrou de mim pois uma amiga precisava conversar com escritoras de mais de 40 anos pro seu trabalho de TCC. Minha resposta foi: olha, não sei se eu posso ser considerada escritora, mas pode dar meu contato. E de repente associei as duas coisas.
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Faz umas duas semanas que comecei assistir a série The Bear. Meio desavisada, sem pesquisar nada, só porque gostei de um diálogo que vi em uma postagem no Instagram. E que diálogos, simplesmente viciei e devorei a série. São sequências de verdades, e choros, e socos no estômago sem fim. Num desses diálogos veio a palavra paixão. O quanto precisamos muito encontrar aquilo que temos verdadeira paixão em fazer nessa vida.
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E o que tudo isso tem a ver? Tem a ver que eu acho que corro, mas não sou corredora. Que escrevo, mas não sou escritora. Mas a paixão que sinto pelas duas coisas, faz meu olho brilhar a ponto de dispensar esses títulos. E que no fim, sem os títulos, faço com ainda mais paixão.
terça-feira, 24 de junho de 2025
Ginástica
Ser mãe é uma ginástica.
Semana passada marcaram uma reunião importante em Guarulhos. Quando fui colocar na agenda, dei de cara com "apresentação ginástica Mel". Ah, meu senhor... Não querendo abrir mão de nenhuma das duas coisas, só pedi: eu vou, mas preciso estar em Porto Alegre às sete! Passagens compradas, só dependeria da boa vontade da Azul (e do vendaval que se instaurou em Porto Alegre). Um Uber, um vôo turbulento, um ônibus pro terminal certo, uma reunião de duas horas, uma corrida pra pegar o ônibus de volta ao terminal de embarque, mais um vôo turbulento e outro Uber em meio ao trânsito do fim do dia, e às 18:37 eu descia perto do Colégio a tempo de tentar comprar flores pela apresentação da guriazinha. Frustrada com as duas floriculturas fechadas, fui pro ginásio onde as mães das colegas tinham feito meu papel de maquiadora e cabeleireira além de ter guardado um lugar bem na frente, enquanto o pai organizava a logística do outro filho. Sentei exausta, mas ao ver ela linda correndo até mim e gritando aquele "mamãe" que enche uma casa, meu cansaço praticamente se desfez. E após mais ou menos dois minutos e treze segundos de apresentação, onde minha ginasta acertou metade da coreografia e acertou do jeito dela a outra metade, ela surgiu novamente na minha frente, sorrindo feliz.
- Foi lindo, meu amor! A mamãe tem um mini presente pra ti. Não consegui comprar flores mas trouxe outra coisa...
- Balinha de avião!!! Eu amo balinha de avião mamãe, brigada!
Ô ginástica que traz resultado, se não pro corpo, pro coração.
quinta-feira, 19 de junho de 2025
Histórias
Feriado, chuva, café na cama, slime, tema, cara a cara, tédio... Lucas pede pra jogar vídeo game. Mel me olha e pergunta:
- E agora, mamãe, o que a gente pode fazer... Já sei! Tu lembra que eu sempre te peço pra contar histórias de quando tu era mais nova?
- Tá bem, que história tu quer saber?
De uma vez que tu te machucou. De um Natal que foi bem diferente quando tu era criança. De um aniversário que tu gostou muito quando era adolescente. Da primeira vez que tu lembra de ter ido pra praia. Do dia que tu pegou a Pulguinha.
E assim, juntas procuramos uma cicatriz que se perdeu no meio das ruguinhas da minha testa, resgatamos a boneca que ganhei no Natal que passei mal de tanto comer nozes, olhamos todos álbuns de fotos disponíveis e lá achamos meus 15 anos com minhas melhores amigas, passeamos pela praia dos Ingleses e terminamos lá na Miguel Tostes vendo nossa preta veiusca bem pequeninha.
E quem diria que o encantamento e curiosidade dela por coisas tão comuns me levassem a re(vi)ver momentos tão aleatoriamente especiais.